Se Os Cães Latissem

1

Alfred pressiona o botão e aparece a próxima mensagem no visor de linha única da caneta-gravadora: 44 - Compre toda a água tipo D que puder.

— O quê? – Alfred fala consigo mesmo e calcula quanto dessa água conseguiria comprar. Mais de 5 bilhões de litros.

Ele se recosta na cadeira. “A caneta nunca errou, mas gastar tudo o que tenho em água é risco demais...”, pensa. “Que se dane!” Ordena ao computador que faça a aquisição.

— Créditos quase esgotados após essa compra. Confirma a compra? - indaga-lhe o computador, também incrédulo da decisão tomada, mas sem poder opinar, pois Alfred desativou há anos essa opção da configuração da máquina.

— Confirmado! - diz Alfred.

Passam-se alguns segundos e aparece uma tela com seu amigo Paulo às gargalhadas: — Alfred, que sede, hein?

— Vá pro inferno! - grita Alfred. — Computador, feche todas as comunicações.

A tela da direita se apaga com o amigo quase chorando de tanto rir. Alfred vai tomar um copo d’água, enquanto pensa que pode ter feito a maior burrada de sua vida. “E se a caneta errou logo agora?”

Quando volta, na tela está a imagem do Coordenador: — Alfred, desculpe violar seu comando de comunicações fechadas, mas preciso confirmar. Quer mesmo comprar essa quantidade de água?

Alfred vacila por alguns instantes, até que confirma a compra e dá um falso sorriso ao Coordenador, como se soubesse muito bem o que está fazendo.

O Coordenador acena com a cabeça. Alfred vê a quantidade de seus créditos se reduzirem. E se reduzem mais ainda quando Alfred contrata os serviços de transporte e armazenamento. “Estou falido, por que fui acreditar nessa caneta? Devia ter pensado melhor...” Alfred se recorda de todas as seqüências anteriores, de todas as 43 seqüências que se revelaram corretas, e isso o reconforta, dá-lhe esperança.

Só que essa esperança já é mínima quando, após mais de trezentas rodadas, ele só consegue vender menos de um décimo por cento de toda a água que comprara e com uma margem minúscula de lucro. Enquanto isso, vê alguns de seus amigos jogadores a enriquecerem. Imagina que conversam entre eles sobre essa decisão esquisita de comprar tanta água, se não é o caso dele ter pirado por jogar tanto, se não aplicou um golpe num banco e agora está milionário, jogando créditos fora como fossem confetes.

— E agora? Vou ter que adiar minha mudança para Terra II para só daqui a um ano, quando tiver créditos suficientes...

2

Faltam só quarenta jogadas. O canal de comunicação de emergência se ativa e surge a mensagem em letras garrafais vermelhas: FALHA EM SISTEMA DE DESCONTAMINAÇÃO. Dois reservatórios de água tipo D que abastecem a população de noventa cidades no Oriente Médio foram contaminados.

Alfred sorri. Aguarda mais uma rodada, vê a cotação da água tipo D disparar e começa a negociar. Na última jogada, restou-lhe 50 litros de água em estoque e sua fortuna inicial estava multiplicada centenas de vezes. Pula de alegria por todo o apartamento. A caneta cai de seu bolso. Alfred pega a caneta e a beija como uma noviça beija um crucifixo.

Entra no sistema de comunicação do jogo e dita: “Ri melhor quem ri por último”. Grava sua fala com um enorme sorriso e manda-a para todos os jogadores.

Tem vontade de gritar para o mundo como ele é esperto. Mas seu apartamento não tem janelas abertas, todas estão vedadas para evitar a despressurização. Sai de seu apartamento para o corredor e pega o elevador expresso. “Hoje sou um novo rico.” O elevador rapidamente desce os milhares de andares que o separa do solo. “Não, vou para o jardim do prédio.” Alfred comanda o elevador para que o deixe no sétimo andar. Caminha pelo jardim até se cansar e gastar toda a adrenalina ganha com o sucesso no jogo. Senta-se e fica pensando que a vida está-lhe sendo muito boa. Tira a caneta do bolso e lembra quando tudo mudou, para melhor.

3

Há quatro anos, dia de verão do ano 3653 no Hemisfério Sul, Alfred voltava de seu passeio costumeiro de final de tarde. Entra no elevador comum dos moradores e aguarda dez minutos até chegar no seu andar enquanto assiste às notícias do dia projetadas nas paredes.

Entra no apartamento e vê que as compras do supermercado já chegaram. Como sempre, os produtos perecíveis já estavam postos na geladeira. Poucas pessoas costumam pedir produtos perecíveis, já que todos preferem comer fora. Alfred não. Alfred gosta de preparar suas próprias refeições, nem que seja só o ato de abrir uma simples lata. Considera isso uma arte perdida, mesmo que o sabor não fique tão bom quanto o das refeições preparadas na hora pelas máquinas. Guarda os produtos. Repara que ao lado do último pacote há uma caneta. Pega-a. “Parece uma relíquia, uma antigüidade.” Alfred aciona o sistema de comunicação e avisa ao supermercado que o entregador esqueceu uma caneta antiga no seu apartamento.

Prepara sua refeição. Pede que o computador projete as notícias na frente da mesa de jantar. O computador avisa que já chegou sua quota de trabalho para a semana, direto da Terra II. Alfred verá isso mais tarde. Enquanto janta, chega um aviso do supermercado informando que o entregador dissera que não perdera nenhum objeto.

— Computador, alguém mais entrou aqui além do entregador do supermercado?

— Somente você, Alfred.

Alfred termina o jantar. O computador exibe as tarefas da semana. Alfred não ganha muito bem, embora tenha optado por ser um dos Últimos - aqueles que escolheram ficar na Terra enquanto fosse possível. Normalmente os Últimos recebem uma boa remuneração, mas o trabalho de Alfred é muito comum, mal-remunerado. Trabalha projetando jogos para computadores. Alfred adora seu trabalho. Poderia até trabalhar de graça se não precisasse de créditos para viver.

Passaram-se mais de dois meses até que se lembrasse da caneta. O Departamento de Achados e Perdidos deixara uma mensagem dizendo que ninguém reclamara de ter perdido essa caneta antiga e que, assim, Alfred poderia ficar com ela. Alfred não acha muita utilidade nela. Pede para o computador identificá-la novamente. O computador responde:

— É uma caneta-gravadora, feita em material inteligente, que era usada para gravações de som ou de escrita. O que fosse gravado nela ou escrito com ela ficava de forma permanente em sua memória, não podendo ser apagado sem danificá-la. Foi usada, por exemplo, para gravar conversas sem que o entrevistado soubesse ou para registrar o que tivesse sido escrito com ela. Era aceita pelos tribunais como forma de prova. Sistema de alimentação por bateria com reposição de carga por conversão de energia luminosa em elétrica. Os sensores acusam que esse dispositivo está funcionando perfeitamente. Deseja mais informações técnicas?

— Não, é o suficiente.

Alfred deita-se no sofá e fica girando a caneta com os dedos. Acha um botão na caneta, pressiona-o. Soa-se um bip e acende-se a tela da caneta. A frase Oi, Alfred aparece. “Então era para mim mesmo! Como é possível?” Pressiona o botão mais uma vez. Agora você não acreditará, mas com o tempo não duvidará. Alfred vai pressionando o botão e o texto avança. Alfred, aqui estão instruções para serem seguidas à risca. Referem-se a seu futuro e se forem seguidas fielmente lhe garantirão mais felicidade. Não podemos explicar-lhe como essa caneta chegou a você ou como sabemos que as instruções estão corretas. Leia as seqüências. São 47. Só leia a seqüência seguinte quando tiver cumprido integralmente ou atendido a seqüência anterior. Nunca quebre essa regra. Seqüência nº 1: Jogue fora a lata de estrogonofe.

“Que esquisito! E ainda me ordena que jogue fora o estrogonofe, que custa tão caro! E eu pretendia comê-lo no almoço de amanhã!” Alfred deixa de lado a caneta e se distrai continuando a escrever uma rotina de um jogo em que está trabalhando. Em seguida, passa um tempo jogando, até que percebe que a preocupação não foi embora. Vai até a dispensa, pega a lata de estrogonofe e joga-a no lixo. Guarda a caneta. Nem quer ler a próxima seqüência. “Isso é besteira”, pensa.

Dias depois, recebe uma mensagem do supermercado: Senhor Alfred, solicitamos que nos devolva a lata de estrogonofe marca Nutal da compra nº 4.859.390 de 10/01/3653. Há a possibilidade desse lote causar uma intoxicação devido a uma falha no sistema de armazenagem. Em troca e para compensar o aborrecimento, conceder-lhe-emos dez latas do mesmo produto, de outro lote.

Alfred procura onde deixou a caneta. “Vamos ver qual é a seqüência nº 2...”

4

Alfred não acredita ainda que tenha ganho tantos créditos.

— Computador, conecte-se com meu banco. Exiba o extrato dos últimos cinco dias.

Lá estão os créditos ganhos no jogo, livres, à disposição para saque imediato. Nunca Alfred tinha visto um número com tantos dígitos em sua conta-corrente.

Ainda imaginando o que fará com todo esse dinheiro, pega a caneta e pressiona o botão para ver a próxima seqüência: 45 – Evite a Rota das Caravanas.

“Mas que raios é essa Rota das Caravanas?”, pensa.

— Computador, dê-me informações sobre a Rota das Caravanas.

— Alfred, recebendo uma comunicação agora. É o Gerson.

— Prossiga...

Surge a imagem de um rapaz sorridente:

— Alfred, parabéns por seu desempenho no jogo. Parece até que você tem uma bola de cristal! Perdi quase meu pagamento do mês nessa partida, mas valeu a pena pelo divertimento... imaginar todos aqueles jogadores pegos de surpresa quando achavam que já tinham o jogo nas mãos.

— Sinto que você tenha perdido tanto assim, Gerson. Se precisar de uma força, é só me avisar. Aproveitando a ligação, você sabe o que é a Rota das Caravanas?

Gerson sorri.

— Alfred, você vive em outro mundo mesmo! É a rota que estamos usando para abandonar o planeta. Ela dá acesso aos planetas Terra II e Gênesis.

— Quando você deixa a Terra?

— Saio na próxima semana. Você sai em duas semanas, certo?

“Já! Só duas semanas!”, pensa Alfred e se surpreende como o tempo passou rápido.

— Isso mesmo, Gerson. Duas semanas.

— OK, só liguei para lhe cumprimentar. Nos vemos em Terra II.

A imagem do amigo desaparece. Alfred se espreguiça.

— Computador, exiba o documentário mais recente sobre o abandono do planeta.

Aparecem as opções de documentários na tela. Alfred pede ao computador que exiba em duas dimensões, com áudio, sem comerciais e com uma apresentadora feminina de escolha aleatória. Aparece a imagem na tela. A apresentadora alerta que dentro das próximas cinco semanas ocorrerá o abandono do planeta pela última turma, só restando algumas pessoas do grupamento técnico e Os Condenados. O documentário começa mostrando uma entrevista gravada com o astrônomo que descobriu a ameaça ao planeta, há mais de duzentos anos. O astrônomo explica que assim como os planetas orbitam o Sol, nosso sistema solar se movimenta pela galáxia. Aparece na tela uma animação gráfica e ouve-se a voz da apresentadora:

— Fazendo a projeção do movimento do sistema solar, daqui a duzentos anos entraremos numa região com alta concentração de matéria escura, composta por materiais diversos, restos de supernovas. Vocês podem ver que, quando o sistema solar entrar nessa nuvem, a Terra deixará de receber quase setenta por cento da energia solar que recebe hoje, o que tornará inviável a vida.

Em seguida, estudiosos explicam sobre as pesquisas que levaram a concluir que não há como, com a tecnologia conhecida, dispersar essa nuvem, que a Terra ficaria nas trevas por mais de 800 anos. Exibem-se breves relatos sobre as grandes catástrofes anteriores, como a reversão que ocorreu dos pólos magnéticos e o impacto evitado do asteróide Ardhus, cuja superfície foi toda pintada de preto. No último segmento do documentário falam sobre a opção de evacuar o planeta. Na tela aparece um mapa da galáxia e piscam os pontos onde há planetas passíveis de abrigar a população. A apresentadora explica porque escolheram Terra II e Gênesis, e surge na tela, finalmente, a Rota das Caravanas.

— Nos últimos duzentos anos temos feito a transferência da população para esses dois planetas através da Rota das Caravanas, que é a rota que apresenta a menor distância espaço-tempo para nossas máquinas.

Alfred comanda ao computador que encerre o documentário. Sente algo de ruim em seu estômago só de imaginar ter que viajar. Só de andar de carro com rodas, daqueles que nem alçam vôo, ele já se sente mal. Sempre que possível, prefere ir a pé a qualquer lugar. Mesmo com sua família já toda em Terra II, optara por permanecer o máximo possível no planeta natal. Tem sido até um alívio ficar sem a vigilância da família. Nunca conhecera tanta liberdade.

“E agora a caneta me instrui para que evite a Rota das Caravanas! Essa rota é a única forma de abandonar o planeta...”

— Computador, quanto tempo para a evacuação total do planeta?

— A última nave parte em cinco semanas. Haverá depois duas naves para caso alguns dos Condenados mudem de idéia.

— Quem são Os Condenados?

— Aqueles que optaram por permanecer no planeta mesmo após todos os avisos e explicações.

“Eu é que não quero permanecer o resto de minha vida num planeta praticamente vazio com um bando de doidos. Quanto me resta de vida ainda? Talvez duzentos ou duzentos e cinqüenta anos, se der sorte.”

5

Alfred pensou muito e tomou sua decisão: não vai ficar entre Os Condenados. Pela primeira vez em quatro anos resolve não seguir a seqüência ditada pela caneta. Já empacotou todos seus pertences, que seguirão numa nave cargueiro. Solicita um táxi.

— Daqueles que não voam, por favor! – pede para a atendente.

Chega na área de lançamento. O computador da recepcionista identifica-o, e ela lhe orienta:

— Sr. Alfred, seu vôo partirá do portão noventa e três. O senhor será transportado até uma base em órbita, a Newton III. Lá, o senhor pegará sua condução definitiva ao planeta Terra II, a nave Arrow. Dentro de duas horas nosso sistema de transporte de carga pegará seus pertences, que serão encaminhados para a Terra II pela nave cargueira Júpiter VIII. Siga o sinal para chegar na sala de espera.

Nessa sala, Alfred assiste ao filme com as instruções de vôo. Um esquema tridimensional exibe os principais compartimentos da nave enquanto o apresentador descreve o uso. A apresentação termina explicando como agir em caso de emergência. Alfred toma um lanche, entra na nave que, após a verificação de que todos os passageiros embarcaram, parte para a base Newton III. Alfred está sossegado, quase dormindo. Ingerira antes do vôo um eficiente calmante, embora esse vôo não vá durar mais do que quinze minutos. Nem se dá conta da garota sentada na poltrona à sua frente, que o olha com interesse...

6

Enquanto a Arrow passa pelo último teste de seus sistemas, os passageiros tomam seus lugares. Alfred está na seção A, não porque seja um apreciador do luxo, mas porque essa seção é a que tem o melhor estabilizador inercial da nave, o que torna quase imperceptível os vários saltos que ela dará durante a viagem. Alfred escolheu a cabine com a menor quantidade de janelas e cobriu-as como pode. “Se pudesse, viajaria era no banheiro!”, Alfred pensa e sorri nervosamente. Porém Alfred não conhece nada dessas naves: na seção A, até os banheiros têm vista para o espaço!

Depois de uma hora de viagem, Alfred descobre isso. Atordoado por causa de sua aversão a viagens, fecha a porta do banheiro às pressas. Pergunta para a espaçomoça se todos os banheiros da nave têm janelas.

— Os banheiros das outras seções não têm janelas, senhor Alfred.

Para se garantir, Alfred decide caminhar por quase toda a extensão da nave para ir ao banheiro da seção E. Na volta, resolve matar a sede com um suco no restaurante dessa mesma seção. Alegra-se quando vê o restaurante lotado. Assim sente-se como se estivesse em terra firme. Anda com seu copo de um lado para o outro, procurando um lugar para se sentar.

— Ei, senhor, tem uma vaga aqui na minha mesa, diz-lhe uma bela moça, a mesma que ficara a observá-lo durante o vôo Terra – Base Newton III. “Esse cara parece ter muita grana”, pensa a moça.

— Grato, senhora. Aqui é sempre cheio assim?

— Sempre. No entanto é difícil encontrar um senhor tão bem vestido e simpático por aqui, diz a moça, sorrindo. “E ninguém aqui tem a grana que você deve ter, otário”, pensa.

Alfred conversa com a moça, que lhe parece muito simpática. Discorrem sobre o trabalho, sobre em que lugar vão morar em Terra II, pedem mais bebidas, conversam sobre suas famílias, sobre animais de estimação, pedem uns aperitivos, falam sobre desenhos animados que assistiram durante a infância, sobre o que gostam de comer, sobre as cores prediletas, sobre política, sobre economia, sobre religião, de novo sobre animais de estimação.

A contragosto, Alfred tem que se despedir da moça. O restaurante ficará fechado por algumas horas para limpeza e reposição de produtos. A moça se despede, sorridente, dando-lhe um delicado beijo na face. Alfred já estava apaixonado por ela.

Assim que ela sai, ela pensa: “Finalmente me livrei. Que cara chato! O que a gente não faz para sobreviver... Já está na hora mesmo de achar um trouxa rico... Esse deve servir... Também, investindo tanto, tem que sair alguma coisa a mais do bolso dele. Muita coisa a mais...” E ri, enquanto caminha para sua cabine. Sua cabine já está com as luzes apagadas. É um compartimento coletivo; há mais cinco garotas a dormir nos beliches. “Em breve, mocinhas, vou viajar só na seção A...”

Alfred já está a meio caminho de sua seção, quando pára de repente. “Caramba, nem perguntei o nome da moça... No final da tarde, eu a procuro e não esquecerei de perguntar...”

E como demora a chegar essa hora! Alfred mal consegue dormir, pensando muito na moça. Revira-se na cama e relembra toda a conversa. Lembra dos cabelos dela, loiros, lisos e longos, balançando suavemente quando ela movia a cabeça. Pode se lembrar do perfume que ela exalava... E que lábios! Que olhos! Que corpo!

7

Alfred acorda tarde, sobressaltado, transpirando. Tivera um pesadelo. Sonhou com a caneta, que rastejava feito serpente. Estava sendo perseguido por ela. Corria por toda a nave, um labirinto, e não conseguia escapar, como se ela procurasse puni-lo por não ter seguido a ordem de não entrar na Rota das Caravanas.

Abre a gaveta do criado-mudo. Pega a caneta. “Já que não segui a seqüência, então devo ver qual é a próxima...” Aperta o botão e surge na pequena tela: 46 – Na terça-feira, aguarde próximo aos casulos de escape, às 19:53 h, horário universal. Não se atrase.

“Terça-feira é hoje! Casulos de escape?” Ainda atordoado, não consegue se concentrar direito.

— Computador, o que são casulos de escape?

— São pequenas naves para fuga em caso de acidente. São ativados assim que um perigo à estrutura da nave-mãe é detectado. Nessa situação, este computador alertará os passageiros.

Alfred se recorda do vídeo que assistira antes da viagem. Os casulos de escape são de vários modelos, sendo que os modelos da seção A são os mais avançados e potentes, além de serem individuais. Os das seções C em diante são casulos coletivos. Alfred conclui: quem colocou as instruções na caneta já sabia que ele desobedeceria a seqüência anterior e algo de muito grave acontecerá com esta nave hoje. O sistema de comunicação interna da nave é ativado:

— Senhores passageiros, dentro de cinco minutos entraremos na Rota das Caravanas. Estarão fazendo a travessia conosco as naves Saturno II, Locus, Darwin, Quasar IV e nossa nave-irmã Arrow Zero. Com essa frota, quebraremos o recorde de transporte de passageiros pela rota e o recorde de velocidade obtida pelo uso conjunto dos motores.

8

Durante o almoço, Alfred reencontra a moça.

— Ontem, esqueci de perguntar-lhe o nome - diz Alfred.

— Barbie.

— Que nome diferente! Nunca tinha ouvido.

— Minha mãe me disse que era o nome de um brinquedo que foi popular há alguns séculos, acho que era uma ursinha de pelúcia.

E a conversa se segue por mais duas horas. Alfred e Barbie se despedem.

Alfred volta para sua cabine e acaba se distraindo com um jogo. Quando vê a hora, já são 19:30 h. Lembra-se do aviso na caneta de ficar perto da área dos casulos de escape. Confirma o horário na caneta: 19:53 h.

“Será que eu não deveria avisar os outros? As mensagens na caneta sempre se referiram somente a mim, nunca citando outras pessoas. Não estarei sendo muito egoísta? E a Barbie? Eu não deveria avisá-la para ficar também próxima à área dos casulos?” Alfred sempre teve dificuldades para tomar decisões, e sob pressão fica mais indeciso ainda. “Se na mensagem na caneta não diz para avisar mais ninguém, é porque não é para avisar mesmo.”

Caminha para a área dos casulos da seção A. São 19:45 h. Alfred já está ao lado dos casulos. Lá estão centenas de casulos alinhados, parecendo urnas funerárias, num corredor com a iluminação reduzida, monitorados pelo computador da nave-mãe, sempre prontos para partida imediata. Alfred caminha de um lado para outro. “Será que alguém vai morrer nesse incidente?” Aperta firme a caneta. “Eu poderia avisar pelo menos a Barbie. Vai que ela se atrase para pegar os casulos de escape da seção dela... Ou eu poderia chamá-la para vir aqui nos casulos da seção A.” Alfred se aproxima de um casulo e olha o interior. “Será que eu não estou sendo controlado demais por essas mensagens na caneta? Se já descumpri a orientação de evitar a Rota das Caravanas, por que não poderia avisar só uma outra pessoa sobre a orientação seguinte?”

São 19:52 h. Alfred bate com a mão na testa, lembrando-se: “Caramba, nem olhei qual é a próxima seqüência. Quem sabe não diz nada sobre a Barbie...” Alfred pressiona o botão e lê no pequeno painel: 47 – Escolha máximo tempo.

“Escolha máximo tempo? Que diabos isso quer dizer? Quem sabe a próxima seqüência...” Alfred pressiona o botão novamente, e nada. “Acabaram-se as seqüências? E agora? Dane-se. Vou chamar a Barbie...”

Alfred quase vai ao chão por causa de um forte tremor na nave. O sistema de amortecimento inercial falhou. Do sistema de comunicação da nave vem um silvo de alerta e se ouve:

— Senhores passageiros. Atenção. Situação de emergência. Não é necessário pressa. Dirijam-se calmamente à área de casulos de sua seção, sinalizada em vermelho e entrem nos casulos de escape. Isso não é um exercício. Dirijam-se agora à área de casulos de sua seção. Sigam as setas que estão piscando ao longo dos corredores. Não retornem a seus alojamentos. Isso não é um exercício.

As luzes do corredor dos casulos se acendem. A mensagem será repetida continuamente.

A nave Arrow começa a vibrar e o sistema de amortecimento inercial continua não funcionando como deveria. Alfred corre desajeitadamente pelo corredor dos casulos, em direção à seção onde a Barbie deve estar. Um forte tremor, um estrondo, e Alfred perde o equilíbrio. A caneta vai ao chão e desliza pelo corredor. Alfred cai, levanta-se. “Tenho que achar a Barbie... E rápido.” Corre como pode, mas se desequilibra novamente e cai, dessa vez, dentro de um dos casulos.

9

O sistema de segurança da Arrow está sempre em prontidão total, mesmo que a nave estivesse ancorada numa tranqüila base estelar no espaço distante. Antes que o primeiro passageiro decida correr em direção à área de casulos, todos os casulos já estão preparados para partida imediata. O sistema avalia a quantidade de energia contida no impacto que a nave-mãe sofreu, avalia as informações trocadas entre as naves e dos próprios sensores e já toma decisões por si, sem aguardar ordens dos humanos: a situação atual é crítica, a estrutura da nave está comprometida, recebe as mesmas informações das outras naves, transfere energia adicional para todos os casulos até o limite de capacidade de cada casulo e os prepara para lançamento na mais alta velocidade possível, para que os casulos consigam escapar do que quer que esteja ameaçando a nave-mãe.

Assim que Alfred cai dentro do casulo individual, os sensores acusam que todo o corpo de Alfred já está dentro do casulo. Fecha-se a porta instantaneamente, veda-se o cubículo onde Alfred mal consegue se mexer, pressuriza-se, ativa-se o sistema de controle inercial para permitir que Alfred sobreviva à alta velocidade que atingirá no próximo segundo. Toda a confusão de mensagens do computador, explosões, gritos da tripulação e dos passageiros cessa para Alfred quando a portinhola se fecha. Uma catapulta iônica se arma e lança o casulo o mais longe possível da nave-mãe. Quase ao mesmo tempo, a propulsão do casulo se ativa e faz com que o casulo sulque o espaço como um intenso raio de luz. Alfred não suporta a pressão. Desmaia. Seu coração pára...

10

Barbie ouve o aviso do computador e corre para a área de casulos, atropelando quem quer que esteja na sua frente. “Não sou boba, seus idiotas. Sei que nessas situações nem se deve pensar duas vezes...” Entra no primeiro casulo coletivo que encontra e grita:

— Computador, lance imediatamente esse casulo!

— Desculpe, senhora Barbie, – responde o computador, após consultar os dados da passageira – mas os casulos deste setor só partem com todas as vinte vagas preenchidas enquanto houver passageiros a serem salvos. Queira, por gentileza, sentar-se na poltrona 1 e aguardar.

Ela esmurra o painel da porta. “Não tenho tempo para ficar esperando esses lerdos...” Tateia os painéis ao lado da porta até que um se abre: é o painel de fechamento manual. Quebra a proteção e começa a girar uma manivela. Lentamente a porta começa a fechar.

— Maldição, pra quê uma porta tão pesada logo num casulo de escape?

— O casco dos casulos é composto de oito camadas de material resistente a impactos e radiação, o que aumenta em —

— Não perguntei nada para você, seu computador idiota!

Passam-se dois minutos, faltam poucos centímetros para lacrar a porta. A mão de uma criança entra pela fresta da porta.

— Não fecha ainda não. Tem a gente aqui. – diz a criança.

— Menininho, – diz Barbie – é melhor tirar sua mãozinha daí, senão você precisará de uma regeneração...

Barbie dá um chute na mão da criança. Consegue finalmente fechar a porta. O computador avisa:

— Pronto para lançamento. Posicione-se na poltrona.

Barbie pula para a poltrona. Cintos de segurança a prendem e o casulo coletivo dispara para o espaço.

A Arrow está com rachaduras em todo o casco. As naves estavam alinhadas para propiciar a máxima velocidade e estabilidade durante a travessia da Rota das Caravanas. Explodem. Primeiro explode a Quasar IV, segue-se a Darwin, a Saturno I, a Arrow Zero, a Arrow e, por último, a Locus, a mais poderosa e estável nave da Frota Terrestre. Somente perto de oitocentos casulos conseguem se lançar, mas não a tempo de escaparem dos destroços e do impacto das explosões, além de algum fenômeno que está afetando a rota, causando as destruições. O casulo onde está a Barbie também é atingido e se despedaça.

Os sensores do casulo de Alfred detectam que o coração dele parou. O ambiente interno é reajustado e são tomadas medidas de reanimação enquanto o casulo se distancia, no seu limite de velocidade, da onda de choque das explosões das naves. Se Alfred tivesse se demorado mais para entrar no casulo, estaria na mesma situação dos demais passageiros, com os corpos em pedaços pelo espaço.

O coração de Alfred volta a bater. O casulo já atingiu a máxima velocidade possível e desliga os motores para poupar energia. Assim, por inércia, avança. O procedimento padrão de um casulo seria desacelerar até a posição de repouso assim que detectasse que está numa área segura. Entretanto, a última orientação que o casulo recebeu, transmitida pela nave-mãe antes que ela explodisse, foi que se afastasse o quanto fosse possível do local, pois a Arrow detectara uma anomalia desconhecida.

11

O casulo decide deixar Alfred despertar naturalmente, para que se recupere por meio do repouso. Não há motivo para despertá-lo tão cedo. Há decisões a serem tomadas por Alfred, mas só mais tarde. O casulo já levantou as possibilidades e calculou as probabilidades. Enquanto corta o espaço, já numa região pouco explorada, em alta velocidade, os sensores externos do casulo recolhem informações sobre sua localização e para onde está se dirigindo. Resolve não alterar a rota, para poupar energia. Essa é a diretriz do casulo desde que atingiu sua velocidade limite: usar sua reserva de energia somente para o estritamente necessário. Vasculha as freqüências utilizadas pela Frota Terrestre e não recebe nenhum sinal.

Passaram-se mais de cinco horas do incidente. Alfred desperta. Sonhara com a Barbie, que estavam presos num compartimento da Arrow. O casulo aumenta gradualmente a iluminação. Alfred tenta se erguer, esquecendo-se de onde está e bate com a cabeça na portinhola do casulo.

— Alfred, – o casulo já lera as informações implantadas no corpo dele – você está no interior de um casulo de escape. Você foi ejetado da nave Arrow, em situação de emergência.

— Vamos voltar para a Arrow – Alfred comanda.

— Sinto muito, Alfred. Todas as naves que estavam na Rota das Caravanas ou foram seriamente avariadas ou foram destruídas. Não capto nenhuma comunicação vinda delas. Também não captei nenhuma outra transmissão vinda da Terra, a não ser as transmissões feitas antes do incidente.

— Onde estão os outros casulos? Podemos nos comunicar com eles? – Alfred massageia o ombro, que dói.

— Não detecto sinal de outros casulos. Estou transmitindo o sinal padrão desde que desliguei os motores, e não recebo resposta.

— Podemos voltar para a Terra?

— Sem energia suficiente, Alfred. O procedimento padrão de um casulo é aguardar o resgate, que se guiará pelo sinal que estou transmitindo.

Alfred fica em silêncio. O casulo monitora o organismo dele e verifica que tudo está bem, exceto o nível de adrenalina que está um pouco elevado. A cada quinze minutos Alfred pergunta ao casulo se recebeu algum sinal. O casulo não alerta Alfred de que ele será o primeiro a ser informado se alguma coisa mudar. O casulo sabe que Alfred está estressado, que a situação piorará com o passar do tempo e que o melhor é Alfred manter algum diálogo com o casulo. Passam-se sete horas assim. O casulo avisa que já estão a uma distância segura do ponto do incidente e que vai acionar os retromotores para desacelerar.

— Não deveríamos economizar energia? – Alfred pergunta.

— Sim, mas se nos distanciarmos mais ainda do ponto do incidente, demorará mais para uma missão de resgate nos localizar.

Em poucos minutos o casulo está imóvel no espaço, refletindo em seu casco as fracas luzes de estrelas distantes.

12

Dois dias já se passaram enquanto Alfred se distrai com o conteúdo do computador do casulo: jogos para entretenimento, textos diversos, filmes.

O pensamento que mais freqüenta a cabeça dele é o de que se tivesse avisado a Barbie, ela estaria agora num casulo por perto e poderiam ficar conversando enquanto aguardavam o resgate. Imagina que ela pode até estar morta por culpa dele.

Procurou por diversas vezes a caneta nos bolsos e no interior do casulo, mesmo com o casulo informando que não estava detectando este objeto.

Alfred está com cãibras por não conseguir se mover muito no pequeno espaço do casulo. O casulo analisa a situação e decide que já é hora de fazer sua recomendação:

— Alfred, a situação é incomum. Não recebo nenhuma comunicação da Terra, das bases espaciais, de bases em outros planetas e em seus satélites. Já deveríamos estar recebendo novas transmissões da Terra II ou da Gênesis. Meus sensores não são suficientes para rastrear mais do que alguns anos-luz. A reserva de energia é limitada, assim como meu gerador de energia tem um tempo limite de uso funcional. As chances são pequenas de sermos localizados nos próximos dias. Para poupar energia, principalmente na reciclagem de oxigênio e em sua alimentação, sugiro que ativemos o sistema de hibernação.

— Posso pensar sobre isso por mais algum tempo?

— Sim, fique à vontade. Tomada essa decisão, há mais outras a serem tomadas.

— Huh?

— Podemos ativar os motores e dar meia volta, ficando mais próximo da Rota das Caravanas, consumindo, entretanto, um quarto da reserva de energia. Devido ao nível de radiação que estou detectando a essa distância, que é muito elevado, aproximaremos vagarosamente daquela área, sempre permanecendo a uma distância segura.

— Mais alguma decisão, casulo?

— Preciso saber qual a potência do sinal que transmitirei pedindo auxílio e mostrando nossa localização. Quanto mais potente, maior o alcance, maior a quantidade de energia consumida. São essas as decisões a serem tomadas. Podemos discutir o assunto quando quiser.

— Está bem, casulo. Vou pensar.

Alfred procura no arquivo e acha um documentário sobre os casulos de escape. “Preciso me especializar nesse assunto... Sabe-se lá quanto tempo ficarei nesse aperto...”

O vídeo começa mostrando protestos de tripulantes e passageiros para a melhoria das condições de segurança nas naves para viagem espacial, principalmente nos casulos de escape, depois do acidente com a nave Capitania, onde morreram mais de dois mil passageiros. Decidiu-se que os casulos de escape deveriam utilizar os recursos mais avançados possíveis. Assim, esses casulos, mesmo raramente usados, são o que existem de mais avançado e com melhor qualidade, com toda sua estrutura montada com material inteligente. Numa entrevista, um engenheiro afirma que os casulos são tão resistentes e sofisticados hoje que podem ser quase eternos, tivessem encontrado uma fonte portátil de energia que fosse inesgotável.

Alfred se esforça para lembrar a última seqüência que lera na caneta. “Era algo a ver com uma escolha... Então tem a ver com a situação atual...” Alfred pergunta ao computador qual é a sua recomendação.

— Reativar os motores para alcançar o ponto do incidente, na Rota das Caravanas. Chegando lá, teríamos energia para 50 anos em hibernação transmitindo um pedido de resgate com máxima potência.

— Em 50 anos é impossível que alguém não nos localize.

Lembra-se agora da última seqüência: “Era algo como ‘escolha máximo tempo’.”

— Casulo, o que você entende por ‘escolha máximo tempo’?

— Seria optar por iniciar a hibernação no ponto onde estamos, sem reativar os motores. E transmitiríamos o pedido de resgate com potência mínima.

— Por quanto tempo eu poderia hibernar?

— Nossa reserva de energia permitiria perto de 190 anos de hibernação. Há 80% de probabilidade que qualquer falha em algum componente seja solucionada a contento nesse intervalo de tempo.

Alfred fecha os olhos, passa as mãos espalmadas pelo rosto. Está com medo. “Tenho que acreditar na caneta...”

— Casulo, faço a opção pelo máximo tempo. Inicie o processo de hibernação.

— Certo, Alfred. Bons sonhos. Nos veremos mais tarde...

Alfred começa a se sentir sonolento. Antes de adormecer, pensa na Barbie. Espera sonhar com ela por todo o tempo que durar esse sono. O casulo está inundando o interior com diversos tipos de radiações e gases. Alfred adormece. O metabolismo dele vai se reduzindo. Não sonhará. Todo o seu corpo fica imobilizado. Cada molécula fica num estado de suspensão graças a essas radiações que enchem o casulo enquanto houver energia suficiente. O casulo reduz a potência do sinal de transmissão ao mínimo e apaga as luzes de seu interior.

Alfred fica pronto para sobreviver dentro do casulo por décadas. Se for necessário...

13

Passa-se um ano e o casulo permanece intocado, parado no mesmo ponto. Uma década se passa. Um século se passa. Durante esse tempo, o casulo monitora o estado de Alfred, que está normal para um hibernado. A expressão ‘hibernação’ não seria a mais apropriada, porém foi a adotada pelos técnicos que inventaram o processo. O casulo utiliza seu sistema de auto-reparo para corrigir as falhas que surgem em seus componentes. Noventa e sete por cento das falhas foram corrigidas.

Um século e meio se passa, sem contato algum, a não ser um punhado de poeira cósmica vagando pelo espaço que deposita alguns grãos de matéria no casco do casulo.

O tempo continua seu avanço, até que se completam 163 anos que Alfred está hibernando. O casulo faz uma verificação de rotina nos sistemas e estima que pode se manter por mais vinte anos. Após esse período, sua fonte de energia já não estará mais operacional, a reserva de energia estará esgotada e o casulo terá que adotar o procedimento padrão para um casulo ocupado não resgatado: tirar a vida de seu ocupante, de forma rápida e indolor, através do aumento da radiação que provoca a hibernação.

O sistema de comunicação se ativa totalmente: recebeu um sinal, fraco. Tenta traduzi-lo. Não consegue. Não obedece aos padrões. Todos os sensores externos se reativam. Nada ao alcance. O casulo decide aumentar ao máximo a potência de seu pedido de ajuda e transmite na mesma faixa de onda do sinal recebido.

Uma nave recebe o sinal e dirige-se rapidamente para a posição do casulo. Aproxima-se e examina. Inicia uma sondagem. O casulo detecta a nave e envia as informações padrões; não parece ser uma nave terrestre. Calibra o nível interno de radiação para não desequilibrar o estado de hibernação face a sondagem da outra nave. O casulo transmite um dicionário preparado para contatos com espécies não terrestres. Depois de alguns segundos começa a receber informação da nave. É uma sonda de espaço profundo à procura de novos planetas e de novas formas de vida. A sonda informa que está transmitindo um pedido de resgate para os construtores...

14

Alfred acorda. Abre os olhos. A visão está embaçada. O corpo dói, mas a dor se alivia em seguida.

— Bem-vindo de volta aos vivos, Sr. Alfred.

Alfred relembra o que aconteceu. Lembra-se da caneta-gravadora, dos preparativos para a mudança para Terra II, da Arrow, da Barbie, do casulo.

— As dores já passaram. Não se preocupe por não poder ainda se mover nem falar. Seu corpo levará algumas horas até estar em forma. Estamos trabalhando nisso. Também estamos monitorando suas ondas cerebrais e podemos responder suas primeiras questões... Não, não conhecíamos sua espécie. Você foi o primeiro que encontramos. O casulo onde você estava cuidou de cessar sua hibernação e nos repassou todas as informações sobre seu organismo, sua espécie e sua sociedade...

Passa-se uma semana até que Alfred se recupere totalmente. Os alienígenas atendem o pedido de Alfred e, numa nave de reconhecimento, partem para a Rota das Caravanas.

Encontram muitos destroços dispersos numa imensa área, nenhum pedaço com mais de dez centímetros cúbicos. Analisando os dados que o casulo tinha sobre o evento, a tecnologia das naves humanas informada pelo casulo, a radiação residual e a estrutura do espaço-tempo local, os alienígenas explicam a Alfred que tudo isso ocorreu devido ao sistema de propulsão que as naves terráqueas se utilizaram durante séculos. A estrutura das super-cordas de toda aquela região do espaço foi danificada.

A nave parte para o sistema solar terrestre. Dentro de uma colossal nuvem de poeira cósmica encontram só destroços do que foram os planetas e a civilização humana. Rumam para Terra II e, em seguida, para Gênesis. Apenas destroços. A nave vasculha toda a região da Rota das Caravanas. Sequer uma base avançada humana é encontrada. Num corredor de centenas de anos-luz de comprimento e vinte e três anos-luz de largura há só destroços e planetesimais.

Alfred passa semanas desolado. Os alienígenas fazem-lhe uma oferta: podem replicar as células de Alfred, criando quase-clones, embutindo uma variação genética para diferenciar essas quase-cópias, com gêneros diferentes e correções na estampagem genômica. Fariam a maturação acelerada para a vida adulta e, assim, recriariam e multiplicariam a espécie. Em alguns milhares de anos povoariam todo um planeta selecionado. Só pediam em troca que pudessem observar de forma oculta a evolução dessa sociedade.

Alfred analisa a oferta. Pensa muito. Imagina que se tivesse ajudado a Barbie a escapar do desastre, poderia estar com ela agora, aqui. E quem sabe ficaria mais animado a recriar uma civilização, povoando um planeta. Sorri. O primeiro sorriso dele em mais de um século e meio... Os alienígenas oferecem-lhe a possibilidade de ter uma vida eterna enquanto ele quisesse. Guardam amostras dos tecidos orgânicos originais de Alfred e reestruturam seu código genético.

— Alfred, com essa alteração genética, suas células sempre se manterão jovens. Já pensou em nossa proposta de recriar sua espécie?

Alfred acha muita responsabilidade reiniciar a vida humana. “Se não fosse por mim, era para a raça humana estar extinta.” Passam-se os anos, passam-se décadas e Alfred ainda não decidiu. Os alienígenas não o apressam. Não têm pressa.

15

Já transcorreram mais de três séculos que Alfred está com os alienígenas. Uma das sondas encontra uma nave da Terra, muito distante do corredor que era conhecido como Rota das Caravanas. Alfred vê as imagens. Deve ser uma das primeiras naves humanas a dirigir-se ao espaço profundo. Uma entre algumas que se perderam nessa época. Os alienígenas examinaram exaustivamente a nave, seus ocupantes congelados e demais objetos. Agora é a vez de Alfred. Mas ele procura só uma coisa. “Aqui devo achar a caneta para colocar as seqüências e, assim, fechar o ciclo temporal. De algum jeito, vou mandar essa caneta para mim mesmo no passado, com as seqüências gravadas.” Alfred vasculha todo o interior da nave e os objetos. Pede ajuda a uma pequena sonda, que também confirma não encontrar nenhum objeto com as características ditadas por Alfred e orienta que seria mais fácil reproduzir essa caneta em vez de procurar uma original. Alfred não se desanima. Lembra-se dos tripulantes congelados. Pede para ver os objetos que eles carregavam nos bolsos. Duas canetas, que ainda guardam uma pequena reserva de energia. Alfred pressiona o botão de uma delas: a memória está cheia, imprestável. Pressiona o botão da outra: memória vazia, pronta para uso imediato.

Alfred já aprendeu muito da tecnologia dos alienígenas durante esses séculos que permaneceu com eles. Com facilidade, repara os pequenos defeitos nos circuitos da caneta e recarrega suas baterias. No alojamento de Alfred, o computador alienígena supõe a próxima ordem de Alfred e acessa um arquivo que foi criado há mais de três séculos pelo próprio Alfred: são as seqüências da caneta-gravadora, conforme Alfred se recordava.

O computador dita cada seqüência, vagarosamente, e Alfred grava-as na caneta, com cuidado. Chega na seqüência 46. Sorri. Grava-a, com uma pequena alteração: 46 – Na terça-feira, aguarde próximo aos casulos de escape, às 19:53 h, horário universal, junto com a Barbie. Não se atrase.

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