Primeira Prática

Se tantas são as vezes que executamos uma atividade, que até pode se converter em rotina, o que comumente se destaca na memória é a primeira prática. No passado era comum não nos lembrarmos da maioria de nossas primeiras vezes porque os recursos de nossa memória eram limitados. Não nos recordávamos, por exemplo, da reação dos pais quando pronunciamos as primeiras palavras ou quais foram essas primeiras palavras. No máximo, ficava-se sabendo do ocorrido quando nos era contado pelos adultos que a presenciaram, se confiássemos na memória deles. Há muitos séculos isso mudou: com a infinidade de melhorias genéticas e implantes eletro-orgânicos à disposição, uma pessoa ao nascer já é capaz até de memorizar como foram as etapas de seu nascimento.

Que todos temos nossa primeira vez em tudo já é frase gasta pela repetição, repetida ainda hoje, ano 3728 do calendário do Império Terráqueo ou ano 2057 do calendário do planeta Meslon. Para não ficar numa só frase sem impacto, também lembramos que a primeira vez é a mais difícil e que a prática leva à perfeição.

Tocamos nesse assunto porque estávamos a observar um menino não-humano de sete anos de idade em sua primeira fila. Ele já enfrentara outras filas, mas estava acompanhado dos pais. Em muitas das vezes, especialmente quando era mais jovem ainda, nos braços de um deles. Há alguns dias, vimos que ele estava com seus pais na fila para uma espaçonave, para uma viagem, e por curiosidade e por não ter nada de mais importante a fazer, acompanhamos seu trajeto. Pela primeira vez em sua vida, o garoto ficara sozinho numa fila, sem ninguém a segurar-lhe a mão.

Passaram-se os milênios e esse recurso das civilizações, a fila, continua a existir. Poderíamos dizer que a fila é um dos símbolos da organização da vida inteligente, não fosse tal prática adotada também por outros animais, como as formigas e os elefantes, que caminham naturalmente em fila quando necessário. Isso para ficarmos só no exemplo de animais do planeta Terra. A regra é simples: siga o mesmo trajeto de seu igual que está logo à frente. Todavia, a vida inteligente é a única com a aptidão de permanecer por um longo tempo numa fila que não anda. Essa atitude de enfileiramento vemos também nas obras e atividades dos seres inteligentes: prédios enfileirados, astronaves enfileiradas, sementes plantadas em fileiras, túmulos enfileirados e assim vai.

“Te amo, meu pequeno”, dissera-lhe a mãe ao se despedir. O pai acariciou-lhe o topo da cabeça, onde as protuberâncias típicas de sua espécie estavam começando a tomar forma, enquanto lhe dizia: “Nos veremos mais tarde. Agora, eu e sua mãe temos que ir para outra parte deste planeta. Em breve voltaremos. Fique tranqüilo, há outras crianças. Veja quantas! Divirta-se! Os soldados cuidarão bem de você...”

Pai e mãe voltaram para o veículo, cabisbaixos, juntando-se aos outros adultos. Quando a porta se fechou, a mãe não conseguiu conter um longo silvo de tristeza que se acrescentou às das outras mães. Seu marido lhe abraçou forte. Nunca mais voltariam a ver o filho.

Embora o garoto ainda não tivesse ingressado na escola, já aprendera com a mãe, extremamente zelosa com sua cria, os primeiros rudimentos de leitura e escrita e vinha demonstrando habilidade com os números. Ele não era da espécie humana, como já dissemos, o que se podia facilmente notar pela aparência. Seu planeta natal fica muito próximo à estrela do sistema, praticamente no limite da possibilidade da existência de vida. Em decorrência disso, sua espécie tem a pele brilhante, quase espelhada, grossa, que reflete quase toda a radiação que recebe. Os soldados que vimos por aqui, a maioria humanos, suavam, e os andróides regulavam seu sistema de refrigeração para evitar perda de desempenho pelo aquecimento dos circuitos orgânicos, enquanto as crianças vindas do planeta Meslon achavam que o clima estava agradável.

De início, tímido, o garoto observava o ambiente e seus coleguinhas de fila, todos da sua mesma espécie e que habitavam o mesmo sistema de planetas; são poucos os anos de diferença que os separavam nas idades. “Oi! Como é seu nome?”, perguntou-lhe o garoto que estava à sua frente na fila. “Siraban, e o seu? Você tem animal de estimação? Eu tenho um siax.” Siraban pegara a mania de falar sempre sobre seu siax, adotado e adorado há cinco meses. Um animal que se parece com uma mistura de cachorro e carneiro, muito dócil.

Havia uma confusão de sentimentos em Siraban: tristeza por não estar com seus pais (e seu siax de estimação, é lógico) e alegria por já ser reconhecido como responsável o bastante para ficar desacompanhado numa fila.

“Por que você tanto olha em volta, Siraban?”

“Esta é minha primeira fila sozinho. Quero poder contar tudo que aconteceu, como era o lugar... Olha que legal aquele bosque. Depois dá pra gente brincar lá. E tem um monte de construções por aqui. Tem aquelas chaminés lá, está vendo? Olha a fumaça branquinha saindo...”

Quem sabe até pudesse narrar essa história ao seu próprio filho para encorajá-lo, daqui a algumas décadas, quando ele estivesse também por enfrentar, sozinho, sua primeira fila. Essa idéia de contar para o próprio filho era nossa, já que ainda nem passava pela cabeça de Siraban o pensamento de ser pai algum dia, o peso e a alegria que podia trazer a criação de um filho.

A fila continuava parada, o que permitiu ao garoto praticar o que já aprendera da ciência dos números. Contou quantos estavam na fila. Atrapalhara-se na contagem, já que meninos não ficam quietos numa fila ou em qualquer outro lugar, principalmente essas crianças de Meslon. “Quantos você contou?”, perguntou-lhe o colega de fila. “Da primeira vez, 82. Da segunda, 85.” Com tão precoce gosto pelos números, ele pensava em seguir a mesma carreira de seu tio, que lhe dizia que projetava prédios e que era necessário conhecer muito bem a ciência dos números para que os prédios não caíssem devido aos fortes terremotos no planeta Meslon.

Um dos soldados gritou algumas palavras com um forte sotaque terráqueo. A fila se agitou. “O que aconteceu?”, Siraban perguntou para seu colega, que estava mais atento. “Ele disse para tirarmos as roupas. Vamos tomar um banho. Acho que ele falou algo sobre um tratamento especial para nós.” Siraban se decepcionou: “Então é só para isso a fila... Poderia ter tomado banho em casa...”

As crianças se despiram, digitando o código correspondente no dispositivo que liqüefez suas vestes e que as recolheu ao pequeno reservatório do cinto. Sobraram os circuitos em formato de estrela, na cor amarela, que precisavam manter sempre fixas em suas roupas, para distingui-los dos demais seres daquela região da galáxia. Foram ensinados pelos pais a se orgulharem de portarem essa estrela, que acabou virando um símbolo. Fizeram um amontoado dos dispositivos e das estrelas no chão. Um menino achou curioso: “Um céu de estrelas no chão,” apontou e deu uma gostosa risada.

“Queria tomar o meu banho com água, posso?” – indagou um dos meninos com olhos desejosos. O soldado riu: “Pedido anotado... Todos vocês tomarão banho com água!” As crianças gritaram e pularam de alegria. “Prefere água quente ou morna, menino?” – continuou o soldado. “Gosto de banho bem quente, senhor!” O soldado riu mais ainda. Siraban, que estava logo atrás, riu também, contagiado pela gargalhada do soldado, sem que tivesse entendido, entretanto, o que havia de engraçado no diálogo. Siraban, que já havia falado sobre seu siax de estimação a um dos soldados, comentou com seu colega de fila: “Por que será que se tem medo desses soldados das estrelinhas no braço?” “Meus pais dizem que eles são maus...” – responde o coleguinha. “Não são não... Veja que os soldados estão preocupados em não deixar a gente pelados aqui fora. Já estão abrindo a porta...”

A fila começou a andar, e se desorganizou com a correria das crianças, alvoroçadas, Siraban entre elas. As que já dominavam um pouco melhor as técnicas de locomoção, usavam a cauda para ganhar velocidade. Os garotos entraram num cômodo enorme, mas simples, sem móveis, sem janelas. Siraban estranhou a necessidade de um pesado portão de metal para fechar o cômodo... No teto pendiam algumas lâmpadas químicas e viam-se alguns chuveiros e encanamentos. Havia um odor forte no ar. Um anti-séptico?

“Bom banho, crianças!”, gritou o soldado ao pressionar o controle que fechou a porta... Os garotos aguardaram em pé, esperando que ligassem os chuveiros. “Cadê os sabonetes?”, perguntou um dos garotos, em voz alta.

O soldado abriu um painel ao lado da porta. “Para quanto devo ajustar a radiação, senhor?” Seu superior consultou a tabela e respondeu: “Soldado, ajuste para o nível oito. Não, ponha nível oito e meio para garantir que morram todos. Essa espécie tem quase uma carapaça como pele.”

“Sargento, quanto tempo o senhor acha que levaremos para terminar a limpeza da área?”

“No ritmo que estamos indo, e com a abertura do novo centro de exterminação em Angari, mais uns quatro meses e nunca mais vamos topar com essas criaturinhas pelo Universo...”

O soldado sorriu ao imaginar que daqui há quatro meses poderia rever esposa e filhos, digitou o código para liberar o sistema, regulou o nível de radiação para o nível oito e meio e acionou o dispositivo.

Passaram-se alguns instantes... Ouviram-se gritos, choros, batidas insistentes na porta, orações, gemidos... Após cinco minutos, não se escutava mais nada... mais nada...

A dois anos-luz dali, no planeta Meslon, numa casa simples no campo, o siax de estimação de Benjamin, sozinho na casa, despertou de súbito. Estava muito fraco: não comia há dias. Com esforço, levantou-se, caminhou e passou pelo vão da porta semi-aberta. No quintal, ergueu o focinho e olhou para o céu.

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