Par de Sapatos

Dor de cabeça. Desorientação. Encontro-me deitado. Onde? A superfície é dura. Pelo tato – mal consigo mover os dedos – parece-me ser de madeira ou algo sintético. O odor é de madeira. Não consigo abrir os olhos... Meus músculos não respondem... Escuro...

* * *

Desperto de novo. Sim, estou deitado numa superfície sólida, de madeira. O cheiro da madeira é forte: madeira nova. Não consigo abrir os olhos. Tenho um calafrio quando imagino que possa estar dentro de uma caixa. Um caixão? Sinto frio. Fui enterrado vivo? O coração acelera. Vem-me à mente histórias contadas por um coveiro, num enterro de um amigo, há três anos: “Então, amigo, quando abrimos o caixão para desocupar a cova, o forro de tecido interno estava todo rasgado. Acho que o cara tinha aquela doença que faz parecer que morreu mas não morreu. Ele deve ter acordado lá dentro do caixão, achou estranho estar com algodão no nariz e nos ouvidos, tirou os chumaços, viu que tava tudo escuro e sentiu frio, respirou o aroma de flores que o rodeava, tentou se erguer e deu com a cabeça na tampa do caixão, ficou batendo na tampa, forçando a tampa, mas de que adiantava? Havia dezenas de quilos de terra acima e ele deve ter usado todas as forças e a tampa sequer deve ter se mexido. Daí começou a rasgar o forro no desespero de sair de lá, arranhando a tampa até cansar. Deve ter morrido só horas depois, asfixiado. E teve uma história que o coveiro que trabalhava aqui antes de mim contou. Coitado, já morreu – muita pinga - e eu que fiz o enterro dele. Ele está enterrado logo ali. Ele me contou que entrou naquele mausoléu – está vendo, é aquele com o par de anjos. Ele entrou para fazer uma faxina, pois lhe deram uma grana para deixar o mausoléu dessa família brilhando. O cara destrancou o portão e levou um baita susto quando viu um esqueleto ao lado de um pilar, lá dentro. O sepulcro estava com a tampa aberta e o esqueleto pra fora. Chamou a administração do cemitério e daí viram que o esqueleto estava com o crânio fraturado. O defunto deve ter despertado, saiu do caixão e deve ter pirado, ficou batendo com a cabeça no pilar até morrer de verdade.”

* * *

Sou despertado novamente, agora por sons... Animais? Sinto, sinto o vento, forte! Não posso estar enterrado! A dor de cabeça está bem menor. Os sons são de animais. Uma confusão de ruídos – várias espécies de animais. Acho que ouço aves, pássaros também. Estão muito perto.

Já consigo mover os dedos. Abro os olhos com algum esforço... Há luz, e pouco a pouco consigo discernir que há um teto sobre mim. É uma cobertura. Chuva – escuto o som. Sinto a umidade vinda da chuva. A chuva se intensifica... Fico feliz por existir essa cobertura – pequena, mas protetora. Muito protetora para quem se sente nessa minha situação... E que situação é essa?

* * *

Desperto. Agora vejo claramente que estou deitado numa superfície de madeira, sob uma cobertura de madeira. Ao cheiro forte de madeira se junta o cheiro molhado e fresco da chuva e o cheiro de animais. Já consigo mover os braços. A superfície balança. Os ruídos de animais e pássaros são abafados por trovões e pelas pesadas gotas sobre a cobertura...

Ouço vozes... gritos... Ponho-me sentado. Há um mureta de madeira. Os gritos vêm da direção desse muro. Tenho a impressão de estar num barco. De madeira. Madeira por todos os lados e só uma passagem para o mundo exterior através desse pequeno muro de madeira, que me parece ser a beirada do barco. Nuvens escuras. A chuva continua, mais forte, quase tornando inaudíveis esses gritos e lamentos que não cessam. Já consigo levantar-me e vou até essa mureta.

O barco não está num porto. Está apoiado em solo firme, mas quase não é possível ver um pedaço de chão. Parece-me que estamos no meio de uma enchente. O barco balança um pouco devido ao volume d’água, mas ainda está apoiado no solo. Muitas pessoas estão numa pequena ilha que se formou com a inundação. Uma ilhota que fica cada momento menor. Estão gritando, mas não entendo o que gritam – parece outro idioma. Fisionomias de desespero. Jovens, adultos, idosos. Algumas crianças de colo. Os adultos começam a se atirar na água para alcançar este barco, mas são levados pela correnteza. Há muitos detritos sendo carregados pela correnteza: pedaços de madeira, roupas, utensílios diversos. E corpos, alguns vivos; outros, mortos. Animais também. Vejo um rebanho de ovelhas rolando como guiadas por um pastor que agora está ausente ou talvez seu corpo sem vida as acompanhe, submerso.

A pequena ilha que eu vira de início diminui. Com o avanço da correnteza, pouco a pouco os ocupantes da ilha são levados, até não haver mais ilha.

O barco, percebo agora, é gigantesco. Continua pegado ao solo, mas balança muito – se a altura da correnteza continuar aumentando, o barco seguirá com o fluxo d’água.

* * *

A chuva não cessa. Há poucos minutos o barco começou a movimentar-se. Fico aliviado por ver que estamos flutuando, pois da posição onde estou não se nota se o barco está com sua construção concluída. Estou numa das muretas desse barco, onde há uma cobertura, o que me protege da chuva, mas há pedaços de madeira nas laterais e atrás há a parede do que acredito ser a cabine do barco. É dessa parede, por suas frestas, que ouço sons de animais.

O barco começa a seguir a correnteza, que agora está menos forte, o que deve significar que o nível d’água está se estabilizando. Passamos lentamente por nova ilha. Ao nos ver, alguns dos que lá se encontram se lançam à água e nadam até o barco. Quando se aproximam, surpreendo-me: cada um que se aproxima é tragado por um redemoinho que se forma rapidamente em torno da pessoa, levando-a ao fundo do mar. Com os que mais se debatem o redemoinho gira mais violento, desmembrando seu corpo: braços, pernas e cabeça se desprendem do tronco. Assim, o barco fica cercado nessas primeiras horas de corpos e pedaços de corpos. Basta o barco passar perto de uma dessas ilhas ou de construções elevadas onde há pessoas no teto ou de árvores onde há pessoas nos galhos mais altos para a cena se repetir. Tento gritar para que se afastem, mas não consigo emitir nenhum som. Uma senhora se debate tanto no redemoinho que, com o girar violento, sua cabeça é lançada alto, na minha direção. Antes que eu consiga me esquivar, assim que a cabeça chega perto de mim, um redemoinho de ar envolve-a e devolve-a à água. Com esse redemoinho de ar, os olhos se desprendem da cabeça e ficam boiando por alguns minutos ao lado do barco, ligados ainda à cabeça por suas fibras nervosas.

* * *

Experimento jogar meu sapato próximo ao casco da embarcação e ele é engolido também, de forma lenta, por um turbilhão que se forma, pois me parece que há proporcionalidade entre o movimento do objeto ou pessoa ou animal e a velocidade de rotação desses turbilhões.

Ao fim, sobram nessas ilhas e construções por quais passamos quase somente mulheres, bebês, crianças e idosos, pois os homens usualmente nadam até o barco, e morrem nos redemoinhos que se formam assim que eles chegam nas proximidades. Os que percebem o que está acontecendo, nadam de volta às ilhas, levando, sem o perceberem, grudados em seus corpos, vísceras de seus companheiros que são lançadas longe pelos turbilhões.

Acostumo-me a ouvir os gritos e choros dessas mulheres, bebês e crianças. E dos poucos homens também. Acho que sei onde estou e meu sangue ferve de ódio. Como pode haver amor em alguém que submete sua criação a essa dizimação em massa. Que os submete a morrer de uma forma cruel. Todos vão morrer e a morte menos cruel será por afogamento. “Não poderiam morrer sem sofrer?”, tento gritar.

Mulheres e homens com água pela cintura erguem as crianças pequenas. Quando o nível d’água chega ao peito, colocam as crianças nos ombros. Num momento, numa construção elevada, coberta pela água, vejo em seu topo uma senhora que coloca um bebê na cabeça, até que a água cobre sua cabeça – por uns dois minutos vê-se somente esse bebê sustentado pelos dois braços da mãe estendidos para o alto até que eles se abaixam com o afogamento da mãe e o bebê fica boiando por uns instantes na água até que afunda, cessando-lhe o choro. Que culpa tem esse bebê por toda a maldade humana? Cravo as unhas em minhas próprias palmas, tanta é a raiva que me domina.

Há também animais presos nessas ilhas que vão se formando. Em ilhas que há animais e pessoas, à medida que ela é coberta por água, animais e pessoas se encontram. As pessoas se lançam ao mar para escapar dos animais selvagens, carnívoros. Vejo uma criança ter o crânio esmagado por um elefante, hienas acabarem para sempre com o choro de um bebê. A briga do idoso com a pantera me impressiona. O idoso está munido de uma lança e consegue ferir a pantera que o encurralara. A pantera crava as garras no braço do idoso, arrancando-o. Com gritos de dor, o idoso tomba e a pantera avança em seu pescoço, quase separando a cabeça do idoso do corpo com uma só mordida. A pantera rasga o ventre do idoso e carrega as entranhas como fossem troféu.

A chuva diminui. “Pode falar”, ouço. Viro-me para os lados, mas não vejo ninguém. A voz parecia estar muito perto de mim. Foi minha imaginação.

* * *

Não há mais ilhas, não há mais construções. Agora são só mar, destroços e corpos flutuando. O azul do céu se mostra. Vejo corpos de crianças agrupados, talvez estivessem juntas, brincando; continuam juntas, ainda que mortas. Os corpos que flutuam, os que permanecem inteiros ou quase inteiros, não estão no estado de decomposição que seria esperado, já que se passaram semanas.

Os pássaros que tentam pousar no barco são envoltos por redemoinhos de ar e lançados ao mar; se caem perto do barco são envoltos também por redemoinhos e puxados ao fundo, deixando penas ensangüentadas a boiar. Águias e urubus que devoram os corpos dos mortos tombam na água assim que engolem a primeira porção, o primeiro olho de um cadáver, como se tivesse veneno mortal impregnado nos cadáveres. Ao redor de alguns mortos, de rostos devorados ou intestinos aparentes, há urubus e outras aves também mortas boiando, acompanhadas por diversos peixes.

À volta do corpo de uma criança há dezenas de baratas boiando que devem ter morrido assim que o primeiro pedaço deglutido da criança tocou suas entranhas. Ratos, dezenas de ratos ao lado desses corpos – alguns enormes, todos inertes. Uma criança com o nariz parcialmente devorado tem um rato morto sob o peito, como lhe fosse animal de estimação.

Ter um pedaço do corpo arrancado por uma águia, por uma ratazana ou por uma barata pouco importa para quem está morto – isso só incomoda aos que estão vivos e assistindo às cenas. Imagino como fora a morte para a maioria dessas pessoas: a água sobe, a pessoa se debate, engolindo água até que, com os pulmões cheios de água, sem conseguir respirar por dois ou três minutos, desfalece e morre em mais alguns minutos. Esses até morreram rápido, pois quem sabia nadar morreu após se esgotarem as energias; quem se agarrou nos destroços flutuantes morreu lentamente, de fome. Para aqueles que tentaram comer outros animais ou até outras pessoas, acho que o destino foi o mesmo das águias, urubus, ratos e baratas. A morte foi mais rápida para alguns que tinham escalado as mais altas árvores durante as tempestades. Lembro-me de ter visto um garoto, ágil, subir até o topo de árvore centenária: foi fulminado por um raio.

Compreendi porque os corpos não estavam decompostos: bactérias e vermes que começavam a se alimentar desses corpos morriam. Ninguém escapa da morte, exceto quem está nesta embarcação.

“Tudo bem com você?” Novamente parece-me ter ouvido uma pergunta vinda do ar. Tento gritar: “Não, não estou bem, como poderia estar bem presenciando tal extermínio da vida!”, mas nada sai de minha garganta.

* * *

Os corpos borbulham, fervem, desfazem-se. Algo com a água em si. A carne e entranhas se soltam e se dissolvem. Os ossos afinam até desaparecem. Antes que os intestinos dos mortos se dissolvam, entretanto, eles se posicionam formando letras, depois palavras, depois frases. Não sei como, mas sinto isso: são frases de ódio escritas em todas as línguas que já existiram e em todas que existirão. Estranhamente, se é que algo mais pode ser estranho depois de tudo que presenciei aqui, ao final, os olhos permanecem íntegros por alguns dias depois que todos os corpos se desintegraram. São milhares e milhares de olhos boiando, misturando-se, colidindo uns com os outros, olhos grandes, olhos pequenos, olhos de gente, olhos de bichos, olhos castanhos, olhos pretos, olhos verdes, olhos de criança, olhos de adulto, olhos que se desencontraram de seu par, olhos que nunca tiveram par, olhos que nunca enxergaram. Talvez tenham sido deixados para serem as últimas testemunhas, forçadas, de tudo o que ocorrera até então. Passados mais alguns dias, esses olhos, um a um, explodem, como grãos de pipoca em óleo quente.

A desintegração total dos mortos até me deixa aliviado, pois não vou mais precisar ver corpos e pedaços de corpos boiando – se nada os pudesse comer sem que morresse também, eles ficariam íntegros pela eternidade como provas dessa carnificina, provas de um crime perfeito, provas de até onde pode ir a raiva ou a maldade de quem é, ao mesmo tempo, o júri, o juiz e o carrasco.

Esse efeito corrosivo da água deve também ter acabado com os peixes. Não vejo mais vida, a não ser os animais nesse navio, aos quais posso ouvir, mas não consigo nem sequer vê-los através dessas frestas estreitas entre as ripas. Também ouço algumas palavras vindas de dentro da embarcação dos seres humanos que restaram, mas continuo não as entendendo.

Há alguns sinais de vegetação, o nível d’água abaixa. Há tempos não chove. A água, que se tornara corrosiva, não afetou a vegetação. Jogo meu outro sapato na água e vejo ele se dissolver, a água em torno dele borbulha. É um eficiente método de acabar com as provas do maior crime de todos.

* * *

Depois que os destroços e corpos no mar se desintegram por completo, de turva a água passa a límpida, transparente, livre de pecados, pelo menos na superfície. O nível d’água abaixa. Entre os pedaços de madeira avulsos no piso encontrei um em forma de estaca – coloco-o entre as tábuas da parede que me separa de onde estão os animais e humanos, e forço para abrir passagem. As tábuas envergam... mais força e elas vão se soltar... mais força... mais forçaaa... quase... forçaaaaa...

Uma mão no meu ombro, apertando-o delicadamente. “Tudo bem com você? Pode falar, meu filho...” Não estou mais na embarcação... Vejo um crucifixo à minha frente e a mão que está sobre meu ombro é de um padre. Estou sentado, a roupa colada ao meu corpo suado. Estou num confessionário. Lembro-me que é por isso que eu tinha vindo à igreja matriz, na região central da cidade: para me confessar...

O padre dá um ligeiro e leve sorriso e volta ao cubículo do confessionário, pronto a ouvir mais um relato de culpas, enganos e erros de uma vida pensada e vivida. Peço desculpas e me levanto, com alguma dificuldade, como se tivesse ficado sentado por horas, e saio da igreja. Nunca mais voltaria. “Não sou eu quem deve pedir perdão...”, murmuro enquanto saio. Faço meu caminho de volta passando pelo centro comercial. Não poderia caminhar descalço até minha casa. Preciso de um novo par de sapatos...

Comentários do autor: como surgiu a idéia para este conto e o processo criativo; curiosidades sobre o desenvolvimento do enredo; comentários aos comentários de leitores (leia somente após ter lido o conto, pois posso estar comentando pontos-chave da história).
Escrever comentário: escreva se gostou ou não do conto (não esqueça de citar o nome do conto) e por quê; se quiser, dê sugestões (todos os comentários serão lidos e respondidos)
Download deste conto: clique com o botão direito do mouse e escolha "Salvar destino como..."
Copyright © 2005 Rogerio P. Vieira. Todos os direitos reservados.