Uma Obra (de Arte?)

“Está logo ali...”, ele aponta.

Sua companheira observa a obra atentamente: “Lindo! O colorido é original. Transmite alegria, felicidade...”

“Repare no céu...”

“Ótimo. Dá uma sensação de tranqüilidade... E o mar! Essas ondas... Já havia toda essa água aqui quando você chegou?”

“Não, só metade. Peguei a maior parte no quarto planeta desse sistema e o restante nos demais planetas e satélites.”

“Você leva jeito para a coisa...”

“Estou aprendendo... Essa foi a segunda tentativa. A anterior não deu certo. Nós passamos pelo que sobrou da experiência: aquele cinturão de asteróides entre o quarto e o quinto planeta. Veja o satélite que coloquei neste planeta para deixar a órbita estável... Também é sobra da experiência anterior. Fica mais bonito vê-lo do lado deste planeta onde está escuro...”

“Maravilhoso!”

Uma extensão luminosa do corpo dele retira centenas de toneladas de frutas de milhões de árvores. “Experimente...”

As frutas se desintegram. “Deliciosas...”

“São mais saborosas sem os caroços...”

“Você fez todas as frutas pequenas assim?”

“A maioria. Tentei fazer com que fossem maiores, mas não consegui acertar no código genético...”

“Qual base você usou?”

“Sexto Elemento. Tabela Feridi.”

“Ah, é difícil acertar os detalhes em projetos baseados nele.”

“Mas, pelo menos, serve muito bem para criar seres do modelo Sait 4, desde que se proceda a alguns ajustes periódicos. Na semana passada, por exemplo, tive que eliminar de novo uma boa parte do resultado desta experiência. Os seres ficaram grandes demais, atrapalhando a continuidade do desenvolvimento de meu modelo. Além de ter que fazer esses acertos periódicos na evolução das espécies, alterei duas diretivas do modelo Sait 4. As espécies aqui competem entre si e procuram sempre se multiplicar. Veja naquela área, por exemplo...”

Ela ri. “O que estão fazendo?”

“Um está fecundando o outro. Fazem isso em pares. É eficiente para fazer cópias do original com uma boa possibilidade de mutação genética.”

“Um em cima do outro... Eles fazem muito isso?”

“Não. Mas, se meus cálculos estiverem certos...”, ele retira um macaco duma árvore, “uma linhagem desse animal vai se desenvolver numa espécie com capacidade para se reproduzir em qualquer momento. Deve desenvolver uma inteligência primitiva e minúscula. Vou fazer com que cada um do casal tenha grandes diferenças em seus interesses para ver o que acontece. Imagine: um precisará do outro, mas não se entenderão...”

“Ha ha ha. Essa eu quero ver. Quando este animal se desenvolverá?”

“Na semana que vêm.”

“Vou estar no curso de Mecânica Niástica III. Vamos voltar aqui na outra semana?”

“Não vai dar... Vou concluir o experimento depois da próxima semana... Não contei para meu instrutor sobre esta experiência...”

“Você é louco? Não contou? E você veio fazer a experiência logo no Universo 48J. Ele criou esse universo na disciplina de Criação Geral VI na turma anterior. Vamos acabar com isso agora mesmo, antes que ele perceba!”

“Com os recursos que eu tinha, não daria para criar vida num universo mais velho. Preciso só de mais uma semana para ver como a experiência continua... Depois vou cuidar para não deixar nenhum vestígio...”

“Acho essa parte mais divertida: desmontar os átomos”, ela diz, convertendo uma cadeia de montanhas em partículas. “Pena que não vou poder lhe ajudar...”

“O ano que vem será melhor. Estou economizando para fazer uma experiência maior ainda... Você poderá acompanhar todo o processo... Vou usar o Universo 9C, que já está abandonado há dois anos. E usarei o modelo Desmon 37 de criação de espécies.”

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