Mãos de uma Virgem

Uma combinação de fatores pode abrir caminho para acidentes. Sexta-feira. Carlos aguardava ansiosamente o final do expediente nesse serviço desgastante de suporte ao usuário. Sobrara uns trocados do salário do mês e ele resolvera gastá-los na clínica de massagem predileta. “Vantagens de ser solteiro”, pensou, e se imaginou selecionando uma voluptuosa loira para lhe deliciar com o movimento de dedos e mãos. Desde que se tornou obrigatório o implante da bio-identificação, há cinqüenta ou sessenta anos, os casados praticamente perderam a possibilidade de dar suas escapadas da rotina marital. Basta a esposa consultar a tela de localização pela rede mundial para saber exatamente onde seu marido está a qualquer dado momento. E, pagando uma tarifa extra, pode saber até quem são as outras pessoas que estão numa área de cinco metros de distância em torno do marido. Pelo menos o marido também pode usar do mesmo meio para verificar onde a esposa está.

Mas isso não era preocupação do Carlos e sim o passar do tempo. Ele olhava quase de minuto em minuto o relógio, até que acabou seu turno de trabalho.

Com rápidos movimentos, desacoplou o visor do rosto, levantou-se da cadeira, pôs seus pertences dentro da mochila, despediu-se dos colegas. Nunca contara aos colegas que ele ia quase uma vez por mês nessa clínica de massagem. Iriam gozar da cara dele. “Não consegue mulher de graça para lhe dar uma bela massagem? Tem que pagar? Acho que o Seu Benedito da portaria até pode lhe fazer uma massagem de graça se você pedir com jeitinho...” imaginava Carlos que ouviria deles. “Ora bolas, sai mais barato usar essa clínica,” pensou Carlos, enquanto passava pela catraca da estação do Metrô. Para conseguir uma interessante namorada precisa-se ter a cartela comprovando um código genético invejável, fruto de pais com cartelas igualmente admiráveis ou da atuação dispendiosa de uma clínica de aprimoramento genético e estético.

Pegou a linha catorze longitudinal leste e desceu na estação Trabalhadores. Entrou apressado em seu apartamento, tomou um rápido banho, passou um perfume falsificado mas muito bom, pôs uma roupa confortável. “Essa é fácil de se tirar”, falou sorrindo para o espelho. Metrô de novo. “Uns trinta minutos,” pensou. Ao seu lado sentou-se uma senhora. Pela aparência, deveria ter uns sessenta anos, mas nunca se pode confiar nesse parâmetro, pois freqüentar qualquer clínica de rejuvenescimento com preços módicos pode atrasar o envelhecimento em vinte ou trinta anos. Ela ativou a tela de sua poltrona para passar o tempo. Percorria as opções dos menus. “Conspirações, parece interessante,” falou para si mesma. Foi olhando os arquivos e escolheu “Orpleinianos já nos visitavam antes de 2066.” Carlos ficou observando, poderia assim passar também o tempo da viagem com uma distração, sem ter que gastar mais do que a passagem. Enquanto avançava o documentário, a senhora puxou conversa: “Não é mesmo estranho, jovem, que os orpleinianos já tivessem tantos produtos adequados aos humanos após somente algumas semanas do primeiro contato?”

Carlos estava acostumado a chamar os orpleinianos de “orps”, como todo mundo fazia. Demorou alguns instantes para associar uma coisa à outra. Ele puxou da memória as aulas de História Geral: o primeiro contato dos orps foi em 2066, é fácil lembrar porque agora se celebra o cinqüentenário.

“A senhora concorda com esse pessoal que diz que eles já nos vigiavam nas décadas anteriores?”

“Não só nos vigiavam, meu filho, mas viam o nosso planeta como mais um mercado consumidor dos produtos de Orpléia!”

Orpléia, o planeta natal e sede dos orps. “É,” diz Carlos, “eles escondem muita coisa da gente. Nunca li nenhuma informação que eles nos passassem sobre os outros planetas com os quais eles dizem também ter negócios. Só se ouvem boatos.”

“Antes dos orpleinianos, a qualidade de vida era melhor. Aí vieram eles com um monte de produtos mais sofisticados e baratos que os produzidos na Terra. Muitas empresas faliram.”

Carlos continuou a conversa, mas não estava muito interessado nessa teoria da conspiração dos orpleinianos. E não esperava que a senhora tirasse da bolsa um cartão de memória e carregasse no aparelho. Carlos teve que agüentar os vinte minutos seguintes vendo as fotos e vídeos dos netinhos dela, em todas as posições e situações possíveis.

Desceu na estação Relógio. “Nome esquisito para uma estação do Metrô”, pensou Carlos de forma automática como o fazia toda vez que descia nessa estação. Se tivéssemos somente pensamentos inéditos não pensaríamos tanto. E pensou de novo que no passado deveria existir uma torre com um relógio na região, daqueles antigos, com ponteiros e tudo.

Andou dois quarteirões e chegou na clínica. A atendente já o conhecia e entregou-lhe a ficha de acesso com um sorriso cordial. Como se habituou a fazer, Carlos dirigiu-se à última salinha da área da recepção. Viu que estava desocupada e entrou. Fechou a porta, sentou-se e a tela na parede se ativou. Disse ao computador quanto estava disposto a pagar. As garotas disponíveis por esse preço apareceram na tela. Carlos pediu para limitar a massagistas de 18 a 22 anos e depois para limitar a garotas loiras, daquelas bem musculosas que tanto agradam aos homens. Restaram três garotas. Duas, pois a terceira foi escolhida pelo senhor que estava na terceira salinha, durante o intervalo em que Carlos olhava para a tela, admirado pela formosura das garotas. Carlos pediu para exibir as projeções tridimensionais dessas garotas, em tamanho natural. Ficou observando a primeira, Débora, enquanto a imagem girava. Essa era novinha, não a conhecia, mas era do jeito que ele queria. A projeção mudou para mostrar a Débora se exercitando. Carlos ficou extasiado quando viu a imagem dela erguendo seguidamente halteres de vinte quilos em cada mão. “Só essa visão já vale o preço”, pensou. Quando ia pedir para ver a segunda, reparou que havia uma propaganda na projeção. Experimente nossa novidade alienígena, lia-se. “Computador, abra a propaganda.”

“Você quer novidades?” ouvia-se no áudio da propaganda. “Acha que não existem mãos mais macias que as de sua robusta massagista?” Na tela apareceu uma morena nua com uma abundância de músculos que poucas teriam. “Nossa clínica saiu do planeta para encontrar o que há de melhor em massagem neste universo. E lógico que encontramos. A aparência importa tanto para você?” Uma loira apareceu projetada também em três dimensões. “Pois se você experimentar nossa novidade, deixará de dar tanta importância à aparência.” A loira foi se desvanecendo, aos poucos sendo substituída por uma outra imagem. Carlos se aproximou da projeção para ver melhor. “Lesmas?!” espantou-se.

O aspecto era estranho; eram redondas e achatadas como pequenas e grossas panquecas. Esses animais, assemelhados com as lesmas terrestres, são uma praga no planeta Orpléia. Multiplicam-se rapidamente e atacam pequenos animais nas fazendas. Mas houve quem soubesse tirar lucro delas, como a empresa que as vende para clínicas de massagem. As diferenças entre essas lesmas massagistas e as lesmas selvagens decorrem de pequenas, porém importantes, alterações genéticas.

“Escolher uma lesma em vez da Débora?” pensou Carlos. A propaganda prossegue. “Como é novidade, por menos de um terço do que você pagaria pelas massagens da Débora ou da Sara, você terá uma sessão incrível de massagem com duas lesmas orpleinianas.” Débora e Sara eram as duas massagistas disponíveis segundo os critérios ditados por Carlos.

Carlos nunca foi de perder muito tempo decidindo e a economia seria bem-vinda para poder jantar depois num lugar melhor. “Computador, faço a opção pelas lesmas.”

O computador registrou o pedido e solicitou que Carlos fosse para a área azul.

A atendente da área azul deu-lhe um sorriso enquanto pegava-lhe das mãos a ficha. Introduziu-a no leitor. “Senhor Carlos, fez uma boa escolha como sempre. Todos que experimentaram, adoraram. Vamos até a sala quatro?” Levantou-se. “A climatização da sala está muito úmida para que as lesmas fiquem à vontade. Em alguns minutos o senhor se acostuma,” disse à medida que caminhava com Carlos pelo corredor.

Entraram na sala quatro. Havia uma névoa morna no ar cuja fragrância lembrava relva. A atendente saiu. Carlos despiu-se e deitou-se na maca.

A atendente voltou com uma caixa. “Senhor Carlos, primeiro preciso colocá-las nas palmas de suas mãos, uma em cada. Elas vão ajustar a temperatura delas à temperatura de seu corpo.”

As lesmas eram arroxeadas, encorpadas. Ele abriu as mãos com as palmas para cima. A moça colocou uma lesma em cada palma. Eram maiores que a palma da mão de Carlos. A massagem seria feita pelas duas lesmas, atuando em conjunto. Carlos sentiu que estavam um pouco frias, mas em um minuto já estavam na temperatura corporal dele. E haviam mudado de cor, ficando na mesma cor da pele de Carlos. Essas são características peculiares de sua forma selvagem: quando atingem a pele de um animal, regulam a temperatura e cor para a do animal, visando não serem detectadas por ele ou por predadores.

“Agora elas estão preparadas,” disse-lhe a moça ao tirá-las das mãos de Carlos, pedindo para que se deitasse de bruços. Ela colocou as lesmas nas costas dele, uma em cada omoplata.

“Senhor Carlos, quando elas chegarem nos seus pés, o senhor deve avisar o computador para me chamar. Daí passamos para a massagem frontal.” Enquanto a moça explicava que elas liberariam um muco de odor agradável conforme se moviam e massageavam, as lesmas já haviam se deslocado até o pescoço de Carlos e começaram a fazer um movimento massageando-o.

“Está gostoso”, pensou Carlos, enquanto a moça saía da sala. Elas não eram pesadas, tinham o peso de uma maçã média cada uma, suas contrações enquanto se locomoviam massageavam os músculos de Carlos. A maior musculatura dessas lesmas foi uma das melhorias genéticas implementadas. As lesmas orpleinianas selvagens sobem pelas pernas de animais pequenos, executando um suave movimento conforme se movem sobre a pele. Esse movimento faz com que seu muco, usado também para facilitar o deslocamento, penetre na pele do animal, causando um relaxamento. A manipulação genética tornou vigorosos seus movimentos, proporcionando a massagem que Carlos estava recebendo. A produção de muco também é maior do que na versão selvagem.

Em cinco minutos Carlos se acostumou com as lesmas, relaxando o suficiente para aproveitar a massagem. À medida que elas se movimentavam, deixavam um rastro com uma pasta transparente, de odor agradável, calmante. Carlos ficou tentando distinguir o aroma. O efeito desse muco nos humanos é o mesmo que ocorre nos pequenos animais orpleinianos: ele penetra na pele e relaxa os músculos enquanto atua no sistema nervoso. “Elas são mais macias que as mãos de uma virgem,” pensou Carlos, e riu. Não se lembrava de já ter sido acariciado por uma virgem e muito menos se havia diferença no modo de massagear. “Lesmas de Orpléia.” Sabe-se que Orpléia assemelha-se ao planeta Terra, mas poucos são os humanos que foram autorizados a visitá-la; segundo os orpleinianos, a base da vida também é o elemento Carbono, com formas de vida das quais se pode achar similares na história da Terra, se não no presente, pelo menos no passado. Carlos já teve um cão de estimação orpleiniano, daqueles que são pequeninos, com quinze centímetros de comprimento e que não custam caro. Carlos achava legal o comportamento carinhoso do bicho, mas tanto seus amigos caçoaram dele por ter um cãozinho tão delicado, que doou o animal para uma vizinha do prédio onde morava. Ela era do 108º andar. A doação não resultou na aproximação que Carlos esperava: a garota sempre o evitava. Não a encontrava em casa nem quando procurava visitar seu ex-cãozinho, matar saudades sinceras. Na verdade, Carlos não sabia, ela estava em casa, mas via pela identificação que era o Carlos e não atendia a ligação ou a campainha da porta.

“Será que essas lesmas são fêmeas mesmo? Quem se importa?” Imaginou se perceberia a diferença se fosse um homem lhe massageando, mas afastou rapidamente esse pensamento. Se ele soubesse da diferença de hábitos alimentares entre as fêmeas e os machos dessas lesmas, preferiria que fossem machos. Como elas se reproduzem rapidamente, pondo diariamente ovos com concentrada reserva de proteínas, precisam de uma boa alimentação. Só as fêmeas atacam pequenos mamíferos em Orpléia. Os machos alimentam-se de vegetais e fungos.

Quando terminaram de massagear os pés, começaram a subir pelas pernas. Carlos chamou a atendente, que apareceu em menos de um minuto. “Vire-se, por favor, Sr. Carlos. Vou colocá-las agora em seu peito. Não se preocupe quando elas chegarem no rosto, farão somente uma massagem facial.” Enquanto ela falava, como Carlos reparou que ela olhava seu pênis, um princípio de ereção se manifestou. “Depois, descerão, massageando, e terminarão com aquela massagem especial que nossas meninas fazem tão bem.” Carlos ficou intrigado pensando como as lesmas iriam fazer a massagem especial. Ao terminar de dizer aquelas palavras, antes de sair da sala, ela brincou segurando o pênis dele e fazendo por duas vezes um movimento de subir e descer com a mão, descobrindo a glande, o que provocou uma ereção completa seguida pelo sorriso malicioso da atendente. Quase que Carlos lhe pediu: “Não pára. Continua.” Mas não disse, sabia que ela estava só fazendo um agrado a um cliente. “Será que ela também é massagista? Vou perguntar na minha próxima visita e, se ela for, vou contratar seus serviços.”

Carlos procurou deixar sua mente vazia, deliciando-se com as massagens feitas no peito, no rosto e depois no abdômen. Elas desceram pelas pernas, sem deixar escapar da massagem um único músculo. Após trabalharem os pés, subiram pelas pernas.

Retornássemos no tempo, num laboratório em Orpléia veríamos técnicos em seus computadores manipulando o código genético das lesmas ainda na forma digital. Estavam atendendo uma encomenda de um empresário orpleiniano, que vislumbrou que poderia lucrar se as lesmas sofressem algumas modificações. Havia informações suficientes advindas das experiências feitas nos humanos abduzidos antes do primeiro contato oficial. O empresário consultou o capítulo das experiências sexuais, além de verificar os dados sobre a cultura dos humanos. Como sempre faziam, esses dados estavam disponíveis anos antes do primeiro contato oficial programado, para que os empresários orpleinianos estudassem como lucrar comercializando com um planeta habitado descoberto que fosse semelhante a Orpléia. O empresário teve a idéia sobre as lesmas depois que uma caiu em sua cabeça - quando ela se locomoveu, ele sentiu uma leve massagem em sua careca. Nas informações sobre humanos viu que só poderia lucrar com os homens, já que as mulheres não toleravam a idéia de lesmas sobre elas. No passado, alguns empresários fizeram estudos pensando em comercializar o muco produzido pelas lesmas como lubrificante, mas o produto, embora fosse um excepcional lubrificante, causava corrosão química nos materiais com o uso diário.

Ao se aproximarem do quadril de Carlos, elas se dirigiram para seu órgão sexual. Carlos lembrou-se do aviso da atendente de que elas fariam a massagem especial. “Ela não devia estar só brincando.” Massagearam levemente o saco escrotal por dois minutos e subiram por seu pênis, envolvendo-o. Com um movimento firme e coordenado, elas subiam e desciam, cobrindo e descobrindo a glande lentamente. O pênis de Carlos foi intumescendo até atingir o máximo de rigidez conforme as lesmas aceleravam o movimento. “Essas lesmas conhecem bem esse trabalho.”

O muco que liberavam lubrificava-lhes o movimento. Carlos sentia que seu orgasmo estava perto, mas as lesmas comprimiam seu pênis como se procurassem postergar a ejaculação. Mais uns instantes se passaram com Carlos quase em delírio quando um primeiro jato de esperma irrompeu, formando um brevíssimo arco que se findou no piso. Um segundo, terceiro, quarto e quinto espasmos lançaram jatos de esperma cada vez mais fracos. Quando o pênis dele parou de pulsar, as lesmas o abandonaram, cobertas por esperma.

Elas subiram pelo quadril e estacionaram numa posição logo acima dos rins, uma de cada lado. Por baixo delas se abriram seis orifícios, cada um com uma espécie de dente, muito afiado. Começaram a raspar a pele de Carlos, ao mesmo tempo que liberavam um anestésico local. Carlos não percebia nada, estava relaxado como nunca estivera. “Da próxima vez será de novo com essas lesminhas...”, pensou.

Raspando a pele com esses dentes como fossem lixas, atingiram os vasos sangüíneos. Segregaram um anticoagulante e começaram a sugar o sangue de Carlos. As lesmas perceberam alguma diferença, pois o sangue dos humanos tem mais ferro do que os animais que são naturalmente vítimas dessas lesmas no planeta Orpléia, mas continuaram sugando.

Carlos continuava a não notar o que estava acontecendo, estava quase adormecido. Já era hora da atendente reaparecer para retirar as lesmas, mas ela estava ocupada. Após mais alguns minutos, ela entrou no quarto, com um sorriso na voz: “Satisfeito? Senhor Carlos?” Aproximou-se. “Nossas meninas esvaziaram seu saquinho...”, disse, acariciando levemente o saco escrotal dele. “A moça da limpeza vai ter trabalho para limpar essa sala...” Deu uma gostosa risada. Brincou usando o dedo indicador para balançar o pênis flácido de um lado para o outro. Um pouco de esperma respingou na mão dela. “Olha como ficou molinho...” Carlos nem reagiu ao carinho; estava muito relaxado para se manifestar.

A atendente desviou o olhar para as lesmas. “Nossa, por que vocês estão gordinhas?” Abriu a caixa onde elas estavam guardadas antes. Segurou delicadamente cada uma para erguê-las e devolvê-las à caixa. Elas ainda estavam sugando. Suas ventosas mantinham-nas presas à pele de Carlos. A atendente puxou-as com um pouco mais de força. Elas descolaram da pele de Carlos. As feridas dos cortes feitos por elas começaram a sangrar. A moça se assustou, deu um grito. Soltou as lesmas. Elas espatifaram-se, esparramando sangue pelo chão. A atendente saiu correndo desesperada da sala; ia pedir ajuda.

* * *

Fora o susto, não foi nada grave. Os ferimentos eram pequenos, o sangramento estancou logo que o efeito do anticoagulante passou. A perda de sangue, mesmo o ingerido pelas lesmas, não foi significativo, causando somente uma leve tonteira em Carlos. Ele nem quis ir para o hospital, para evitar sua exposição, mas o pessoal da clínica insistiu, por precaução, pagando todas as despesas. No fim, essas despesas foram pequenas: curativos e, por cautela, alguns exames clínicos e laboratoriais detalhados.

No dia seguinte, Carlos recebeu uma mensagem do presidente da empresa orpleiniana que comercializava as lesmas. Era uma gravação, mas tinha sido trazida diretamente de Orpléia. “Senhor Carlos,” disse ele, “pedimos sinceras desculpas. Já investigamos o ocorrido. A clínica deveria ter descartado as lesmas após um único uso, conforme as instruções dadas, mas havia parado de proceder assim por achar que seria um desperdício, já que elas continuam ainda a massagear mesmo no terceiro e quarto usos. Incluiremos uma instrução no código genético para que cada lesma não possa ser usada mais de uma vez.”

Carlos não quis processar a clínica. “Não vou correr o risco de tornar o que aconteceu de conhecimento público, pois se meus amigos souberem que freqüento esse tipo de lugar...” pensou ele. De forma espontânea, a clínica pagou uma quantia modesta como indenização, o equivalente a quatro meses de seu salário, mas para Carlos estava bom, pois lhe garantiu muitas refeições melhores do que as usuais.

Depois de um mês, Carlos sentiu que estava recuperado o bastante do incidente para aproveitar o período de um ano de uso gratuito das massagistas que a clínica lhe garantiu. Não teve dúvidas ao entrar na sala de seleção: “Computador, faça a seleção das garotas mais caras.” Apareceram sete garotas na tela. Carlos interessou-se de imediato pela Márcia, a garota mais cara da lista. Na projeção tridimensional viu como os músculos dela eram bem esculpidos. E ela ainda o surpreendeu quando, na recepção da área rosa, carregou-o nos braços até a sala seis para a massagem. Todo homem moderno aprecia uma fêmea forte o bastante que o carregue nos braços. Mas foi só a Márcia iniciar a massagem para que ele começasse a sentir algo estranho. Levantou-se aterrorizado e correu nu e a gritar pelos corredores da clínica. Dez minutos foram necessários para os seguranças conseguirem dominá-lo.

Carlos tentou mais uma outra vez, meses mais tarde, mas não conseguiu nem entrar na sala de massagem. Percebeu que não conseguia tolerar que alguém lhe massageasse. Há ferimentos que nunca cicatrizam. Talvez um dia ele vá a um psiquiatra para pedir ajuda e vencer o trauma.

Comentários do autor: como surgiu a idéia para este conto e o processo criativo; curiosidades sobre o desenvolvimento do enredo; comentários aos comentários de leitores (leia somente após ter lido o conto, pois posso estar comentando pontos-chave da história).
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