Mais um Dia de Trabalho...

Cinco naves emergem em alta velocidade da gigantesca estrela azul. Giram uma em torno da outra, num movimento que pareceria aleatório para quem não estivesse acostumado com esse sistema de propulsão. Aproveitando-se do impulso e distorções especiais residuais dados pelo salto estelar, avançam em grande velocidade em direção a um planeta determinado. Na maior dessas naves, a nave que coordena as demais e que está na posição central, estão Souza e Quirino. Conhecem-se há mais de vinte anos, mas somente há quatro entraram no negócio de exploração planetária: saíram cada um de seu emprego maçante, juntaram economias e montaram essa flotilha. No começo, as naves eram só duas, menos potentes e menos modernas, porém ampliaram e modernizaram-se pouco a pouco.

“Salto de navegação concluído. Verificando posições relativas das estrelas... Confere... Sistema estelar confere com a cartografia. Desativando o campo de contenção e continuando o deslocamento até o quinto planeta,” diz Quirino, de praxe, enquanto confere os procedimentos executados pelo computador central. Essa é a especialidade de Quirino: navegação espacial. O computador central faz tudo, desde traçar as coordenadas até controlar as outras sete naves não-tripuladas que fazem parte da flotilha, mas, sem o Quirino, uma decisão equivocada da máquina poderia passar desapercebida.

“Experimente isso, Quirino...”, diz Souza, que acabara de voltar da dispensa da nave, oferecendo um pequeno cubo dourado. Souza é o cérebro financeiro da sociedade ‘Souza & Quirino Exploração Planetária’, além de ter se especializado em armamentos, assunto que é seu passatempo desde a infância.

Quirino pega o cubo dourado, desprende a resina transparente que o envolve e põe-no delicadamente sobre a língua. Fecha os olhos enquanto o cubo derrete e se evapora rapidamente. Uma sensação de paz domina sua mente. Segundos depois, fala: “Com mil asteróides, Souza, que delícia é essa?”

“Comprei na Base Tercis. Chegou ontem, de um carregamento maítico... Há quem mate por um cubo desses... Falta quanto para chegarmos ao quinto planeta?”

“Vamos entrar em órbita alta em setenta e três segundos. Já em alcance visual com alta resolução...”

As naves iniciam seu potente processo de desaceleração, requerendo boa parte de energia. Um planeta esverdeado ocupa a tela principal. Na tela da direita aparecem as informações principais sobre a estrutura do planeta: um resumo dos milhares de dados já coletados pelo computador central e que agora efetua a análise comparativa com sua base de dados.

“Lembra-se da economista planetária do décimo piso da Base Tercis?”, pergunta Souza enquanto confere o resumo da análise preliminar do planeta.

“Não, como ela é? A composição química dos habitantes do planeta confere?”

“Em análise... Sim, confere... É a morena mais curvilínea da estação dormitório. Vamos entrar em órbita agora, não?”

“Em órbita. Ogivas de extermínio já estão calibradas... É a que ganhou o ‘Beleza & Intelecto 2230’? Tenho aqui gravado”, diz Quirino, enquanto comanda ao computador que exiba o arquivo. Quirino avança a imagem e pára quando surge a ganhadora. “É ela, Souza?”

“Lançamento de 419 unidades em trinta segundos... Ela mesma, a de olhos rosa! Chama-se Sônia. Era a mais assediada da estação, e agora piorou: nunca dava bola pra ninguém e agora não olha nem para os lados...”

“Ogivas armadas. Mísseis em ignição,” diz Quirino ao olhar na tela as informações sobre os procedimentos adotados pelo computador central. “Naves posicionadas para o lançamento das unidades...”

O computador da nave interrompe a conversa: “Lançamento em 10 segundos... Interrompendo o lançamento... Detectado que os mísseis 207 e 389 apresentam defeitos no sistema de propulsão... 207 e 389 substituídos... Prosseguindo o lançamento...”

“Precisamos achar um melhor fornecedor de mísseis...”, diz Souza. Quirino ressalta que os problemas são pequenos com os mísseis do atual fornecedor.

“Mísseis lançados...”, Souza avisa. “Você não sabe o que aconteceu comigo na quarta-feira, lá na estação dormitório...”

Em instantes os primeiros mísseis lançados atingem, cada um, as coordenadas para as quais foram designados e liberam aparelhos que pousam e posicionam-se em parte do hemisfério norte do planeta. Sistemas de radares detectaram os mísseis e, nos principais países, os dirigentes estão sendo informados. Alarmes começam a soar pelo planeta. Enquanto os dirigentes avaliam a situação, os aparelhos que já pousaram se livram de sua carcaça e começam a brilhar. A vegetação em volta começa a se desfazer. Os animais cessam seus movimentos, para depois se desintegrarem em nuvens de pó e lampejos. A onda que parte de cada aparelho avança, invisível, e desintegra tudo que é orgânico. As primeiras cidades são atingidas.

“Cem mísseis já atingiram seus alvos. Estimativa de tempo para alcançar todos os alvos: 47 segundos.”

O computador interrompe novamente: “Detectando lançamento de mísseis da superfície do planeta...” Os dirigentes haviam autorizado o ataque às naves detectadas em órbita, de onde os satélites verificaram ser o ponto de origem dos mísseis.

Souza toca alguns botões e confere a tela. “Estão lançando mísseis rudimentares, mas ao detonarem podem contaminar as reservas minerais do planeta. Criando campo de contenção para redirecioná-los...”

“Mande-os para o segundo satélite natural, o menor. Não vamos extrair nada de lá.”

A rota dos mísseis lançados do planeta é alterada, saem da atmosfera. Seu sistema de propulsão se extingue, mas o potente campo de contenção criado por duas das naves impulsionam os mísseis para o satélite. À medida que os mísseis detonam na superfície, fragmentando sua crosta e arremessando largos pedaços para o espaço, o satélite estremece.

Souza confere as informações dos sensores. “Habitantes eliminados até agora: dois bilhões e oitocentos mil... Eu estava na estação, no elevador que vai para o dormitório. O elevador parou num dos andares e entrou a Sônia, usando um mini-uniforme, daqueles colados no corpo...”

“E você puxou conversa com ela?”

“Ela estava com o visor ativo, lendo alguma coisa, eu acho...”, responde Souza, quando sua tela exibe o mapa do planeta com diversos pontos mudando rapidamente da cor azul para a cor vermelha. “Todas as unidades já atingiram seus alvos.” Souza muda a tela. “Droga, ainda estão vivos mais de dez milhões de habitantes. O que aconteceu?”

Quirino verifica. “Recebendo informações das sondas... Eles estão em abrigos blindados que os protegeram; a maioria são crianças e fêmeas. Parece que essa espécie corre rápido. Estou ativando as máquinas exterminadoras.”

“Lá se vai boa parte de nosso lucro...”, diz Souza, ao se levantar e pegar uma prancheta que estava em sua pasta. O computador interrompe a conversa: “Exterminadoras lançadas... Tempo estimado de um minuto para alcançarem os alvos...“

As máquinas exterminadoras se espalham em direção às coordenadas dos abrigos.

“Não foi na quarta-feira que ocorreu um problema no gerador de fusão da estação?”, Quirino pergunta.

Souza se endireita na poltrona, tomando cuidado para não tocar no painel de controle na sua frente. “Foi na quarta mesmo. E só eu e a Sônia no elevador. O elevador pára de repente, as luzes se apagam e depois de alguns instantes a luz de emergência se acende...”

“E o que você fez?”, pergunta Quirino, desviando os olhos dos gráficos que preenchiam sua tela.

“Aguardei uns instantes, esperando que o elevador voltasse a funcionar, enquanto ela continuou lendo o que estava no visor dela, como se tudo estivesse normal. Então tentei ativar o sistema de comunicação, mas não funcionava.”

Quirino volta os olhos para a tela. “Conclusão do extermínio em 12 minutos... Demoraram umas vinte horas para resolverem o problema com o gerador. Quanto tempo vocês ficaram presos?”

“Metade desse tempo. Só depois eu soube porque ficamos tanto tempo esperando: toda a equipe técnica da estação foi mobilizada para descobrir qual era o defeito no gerador e para consertá-lo, além de terem que recuperar boa parte dos circuitos secundários. O que havia sobrado do sistema de energia de emergência atendeu somente os sistemas principais. Parece que a equipe que projetou a estação achou que energizar os elevadores não era prioritário numa situação de queda de energia. Como o problema no gerador era grave, o sistema da estação economizou energia ao extremo. Soube também que, por segurança, quando há queda de energia, é ativado nos elevadores da estação um sistema mecânico que os trava na posição em que estiverem, para evitar que o movimento da estação faça com que eles fiquem num movimento errático, pondo em risco a vida de quem estiver lá dentro e até a integridade da estação.”

Enquanto Souza continua a explicação (ambos adoram esses detalhes técnicos), algumas das máquinas exterminadoras se aproximam dos diversos abrigos subterrâneos. Com o mapa da estrutura em sua memória, coletada pelas sondas em órbita, cada máquina executa o procedimento padrão: circunda o exterior do abrigo à procura do ponto mais fácil de entrada; localizando esse ponto, inicia o procedimento mais adequado para obter passagem. Uma vez dentro do abrigo, a máquina confere a quantidade de pessoas e deposita em pontos calculados quantas bombas de radiação forem necessárias. A máquina retira-se e, estando à distância segura, comanda a detonação das bombas. Todo esse procedimento por cada máquina não toma mais de trinta segundos.

Quirino ouvira atentamente a explicação dada por Souza. “E a Sônia ficou todo esse tempo sem conversar?”, pergunta.

“Eu puxei conversa por algumas vezes durante as primeiras duas horas e ela só respondia com ‘sim’ ou ‘não’ e alguns movimentos da cabeça, até que ela parou de dar atenção ao visor e começou a conversar comigo...”

Quirino consulta os dados enviados pelas sondas. “Trezentos e vinte abrigos já invadidos pelas exterminadoras. Cinco milhões dos abrigados já eliminados... E como foi a conversa com ela?”

“Por incrível que pareça, muito agradável. Mas o melhor, para mim, aconteceu depois que estávamos há oito horas presos...” diz Souza, enquanto passa rapidamente várias telas em seu monitor. “Em que tela está a planilha de custos dessa operação?”

“Na 147, extermínio para extração total de recursos minerais... E o que pode ser melhor do que ficar na companhia daquela deusa por dez horas? Você deu sorte em estar sozinho com ela. Imagine se o elevador estivesse lotado de trabalhadores...”

“Ela é uma alfateste genética... Tela 147 você disse?” Quirino confirma com um movimento da cabeça, enquanto recebe os relatórios das máquinas exterminadoras. Souza revê a estimativa da receita com a venda dos minerais do planeta, deduzindo todos os custos, incluindo agora os custos de dois mísseis substituídos, o uso das máquinas exterminadoras e o uso do campo de contenção: “Essa operação de extermínio até que vai dar um bom lucro.” Souza solicita do computador uma nova leitura das sondas sobre os recursos minerais disponíveis no planeta. Ao ver os números, sorri.

Quirino bate palmas. “Extermínio concluído. Máquinas exterminadoras retornando às naves... A Sônia era alfateste de qual projeto?”

“Do Projeto 12 de Melhor Genoma. Aquele em que ocorreu o problema da perda da capacidade de produzir um hormônio essencial... Lembra qual o nome do hormônio?”

Quirino pensa um pouco. “Não lembro. Sei que esse problema só ocorreu com as mulheres e que as pesquisas para a cura andam avançadas. Na base Catendra, onde passo o fim-de-semana, umas vinte garotas estão com esse problema. A Sonia precisa tomar periodicamente um medicamento para repor o hormônio, não?”

“Precisa. E ela não tinha tomado ainda a dose da semana. Depois de oito horas no elevador, ela já estava se sentindo muito mal... Todos as máquinas exterminadoras retornaram. O que acusam as sondas?”

“Confirma que não sobrou habitante vivo... Energizando as naves de extração mineral. Vamos precisar fazer quatorze viagens com elas até extinguir as reservas minerais de acesso primário. Início da extração em três minutos. E a Sônia agüentou ficar sem o hormônio até sair do elevador?”

“Não, ela estava muito ruim mesmo. Como não tinha o sintético, ela teve que ingerir de uma fonte natural. Eu nem sabia dessa fonte para esse hormônio: o sêmen humano, ela me disse, para meu espanto.” Souza sorri, encosta-se na poltrona e olha para o teto da nave, relembrando os momentos no elevador. “E como eu era naquele elevador o único com um bom estoque de sêmen, ela acabou me pedindo para ajudá-la...“

“Caramba, isso é o que eu chamo de sorte das grandes... Tanto dela como sua. Imagine se ela estivesse sozinha no elevador...”

“E eu fiquei tão nervoso que nem consegui ejacular por conta própria. A Sônia deu uma ‘ajudazinha’. E você nem imagina como aqueles lábios carnudos são úmidos e macios...”

“Sorte dessas nunca acontece comigo.”

“E depois de uns trinta minutos, ela quis uma nova carga do ‘medicamento’. Mas isso é só entre nós, hein? Prometi a ela que não contaria a ninguém o que aconteceu naquele elevador.”

“Pode ficar tranqüilo que não comentarei isso com ninguém...”, diz Quirino, e se volta para a tela. “Naves de extração mineral já posicionadas...”

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