Os Fins Justificam

“Ainda não está bom, precisa macerar mais”, observa Pedro e recomeça a andar de um lado para outro. Ele está assim, inquieto, com a mente perturbada, desde o início do plano.

“Minha mão já está doendo. De quem é a vez agora? Tiago?”

Tiago, filho de Alfeu, queixa-se a João: “Isso é tarefa de mulher...”

Os demais apóstolos atiram pedaços de pão em Tiago. “Ei, ei, já estou indo, já estou indo...”

Os onze riem, o que ajuda a reduzir a tensão em que se encontram desde que o mestre foi preso. É um breve momento de descontração nesses corações que sofrem com a condenação de quem, além de ser seu guia, também é um amigo. Além disso, Judas Iscariotes, sabendo que passaria para a História como um traidor, havia se suicidado, mesmo ciente de que a delação fazia parte do plano.

Tiago pega o pequeno pilão e continua o esmigalhamento da mistura de folhas e raízes.

“A proporção de folhas está certa?”

“Pedro, já é a quarta vez que você pergunta. Quer se acalmar?” Tomé põe a mão de forma gentil no ombro de Pedro.

“É que precisa ser a quantidade certa. A concentração tem que ser exata para os efeitos serem os desejados...”

* * *

Jesus sofre, pregado na cruz. “Tenho sede”, diz. Estava ali o vaso com a beberagem trazida pelos apóstolos. Encheram da bebida uma esponja, e, pondo-a numa cana, chegaram-lha à boca. Jesus suga. Sua mente está atordoada com tantas dores que nem sente o amargor do preparado.

A poção começa a agir. As dores vão diminuindo até desaparecerem – o corpo está anestesiado. Um estado irresistível de sonolência começa a dominar a mente do mestre. Ele perde os sentidos. Seu metabolismo diminui, chega a um ponto mínimo.

O soldado que verifica quais crucificados parecem já terem cumprido sua sina, vê que aquele a que chamam de Messias já apresenta sinais de que está morto: jaz com o corpo frouxo e com sua urina e seus excrementos a escorrerem pelas pernas. Com uma lança, ele faz um leve corte no flanco de Jesus, sem que haja reação. Um fio de sangue escorre. O costume é perfurar-se fundo, mas esse soldado recebera 30 moedas de prata do apóstolo Simão para que só fizesse um corte superficial, além de ter permitido a troca da bebida.

Autorizados, parentes e amigos tiram-no cuidadosamente da cruz. Ouve-se de um dos soldados: “Já morreu? De poucas forças é esse tal rei dos judeus...”

* * *

“E se colocaram soldados vigiando a tumba?”

“Os romanos não vigiam os mortos”, Pedro responde a Felipe. Bartolomeu também os acompanha. Chegam ao sepulcro, fincam as tochas no chão e começam a empurrar a enorme pedra da entrada. A pedra pouco se move – os apóstolos não são reconhecidos por seus dotes físicos. “Se viéssemos os onze, seria mais fácil...”, diz Felipe enquanto enxuga com a mão o suor da testa.

“Tantos caminhando durante a noite atrairia a atenção”, responde Bartolomeu, enquanto procura um bom pedaço de madeira. Achando-o, apoia-o debaixo da pedra e usam-no como alavanca. A pedra começa a se deslocar até liberar a entrada. Bartolomeu murmura: “Benditas sejam as ferramentas criadas pela ciência do homem...”

Jesus está sentado. Diz, com a voz fraca: “Meus amigos, se eu soubesse como é ser crucificado, teria imaginado um outro plano...” Todos o abraçam. Abrem uma esteira onde Jesus se deita. Carregam-no nessa maca improvisada.

Depois de curadas as chagas e fortificado o corpo, com algumas seqüelas, Jesus, novo homem em cidade distante, cuidou, até os seus 79 anos de vida, em seguir, como sustento, o ofício de carpinteiro, aprendido com seu pai, e em orientar os apóstolos a pregar sua fé, difundida ainda mais com as notícias da ressurreição.

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