Em se plantando, tudo dá

Bianca, mesmo com suas perninhas curtas, percorre rapidamente a distância entre o quarto e a sala e pula no sofá, direto no colo de seu pai, Edgar. Dá muita risada, tenta dar-lhe um beijo. O pai impede.

— Não, Bianca, não pode.

— Mas, papai, todas minhas amiguinhas beijam o papai delas...

— Você sabe porque não pode, pequenina.

— Conta de novo a história, papai. Conta!

Bianca deixa seu corpo escorregar pelo sofá até ficar deitada com a cabeça no colo do pai, enquanto ele começa a contar a história.

* * *

Edgar viu a moça entrar e manteve-se em seu disfarce. Continuou sentado num dos bancos da igreja. Bruxas se pareciam com mulheres comuns, idosas ou jovens. Essa era uma jovem. Ela ajoelhou-se perto do altar, que atriz ela era, como se o seu único interesse não fosse aproximar-se da bacia de água benta e encher um frasco. Água benta de verdade como o dessa igreja, benzida por alguém que realmente seria um santo, era ingrediente essencial para as mais poderosas poções.

Assim que, distraída, a moça se dirigiu à saída, Edgar levantou-se silencioso, caminhou até o corredor e tirou debaixo do banco a corda que escondera. Girou o laço sobre a cabeça, concentrando-se para não errar. Só havia uma chance. A moça se virou ao ouvir o zunido, quando o laço caiu-lhe sobre a cabeça. Edgar puxou a corda com força e o laço apertou o pescoço da moça. Arrastou rapidamente a moça pelo corredor enquanto arremessava a outra ponta da corda sobre uma das vigas que sustentava o teto da igreja. Essa coordenação motora ele ganhou de tanta prática. Deu um salto, pegou a outra ponta e puxou, erguendo a bruxa quase até o teto. Amarrou essa ponta da corda e voltou a sentar-se, aguardando a morte da bruxa.

A rapidez na execução era necessária, senão daria tempo para ela jogar alguma rápida maldição para se livrar ou para afetar seu carrasco. Edgar se recordava, enquanto alisava sua calva, que ganhara uma cabeça reluzente, sem um único fio de cabelo, havia trezentos anos. Pelo menos os restantes dos pêlos corporais continuaram. Deveria durar mais quarenta anos essa maldição da queda dos cabelos, era a última que faltava passar entre outras menores do passado.

Edgar já foi um anjo, mas tomou tanto gosto pelos humanos que não perdeu a primeira oportunidade de ir para a Terra e ficar por aqui. Assim que essa obra do demônio - as bruxas - proliferou-se, chamando a atenção celeste, Edgar estava entre os dez que se candidataram a serem caçadores de bruxas. Queria viver entre os humanos. Dos dez, quatro foram aprovados após muito treinamento. Quem conhece como funciona o Céu, sabe que o treinamento de anjos destacados para atividades especiais pode levar décadas. É a busca da perfeição. Sete anos foi o período de treinamento de Edgar. Dos quatro que começaram a caçada há cerca de 1.600 anos, agora só restava Edgar na Terra.

Edgar observava a bruxa se debatendo. Matar bruxas era fácil, elas morriam (e se reproduziam) das mesmas formas que um ser humano, exceto de doença ou velhice. O difícil era pegá-las, e mais difícil ainda era pegá-las e escapar sem seqüelas. Edgar recordava-se do período da Inquisição, quando os humanos acreditavam capturar e queimar bruxas. Que Edgar soubesse, nenhuma bruxa verdadeira foi queimada pela Inquisição, mas somente mulheres comuns. Bruxas verdadeiras não se permitiriam capturar por meros humanos.

Para capturar uma bruxa precisava-se conhecer o demônio como ninguém. Aquela corda, por exemplo, fora traçada em sete anos por Edgar seguindo detalhado ritual. Não havia bruxa que a rompesse, salvo se ela tivesse tempo de lançar um feitiço. Por isso a busca do fator surpresa e a rapidez eram características do caçador de bruxas.

A bruxa continuava a se debater. Com suas últimas forças, conseguiu puxar o bastante o laço que lhe apertava o pescoço para quase sussurrar, embora quisesse ter forças para berrar, com os olhos esbugalhados voltados na direção de Edgar:

— Húmus!

Isso preocupou Edgar, mas não muito. Uma maldição, mesmo as mais simples, como tornar alguém vesgo, requeria meia dúzia de palavras pronunciadas pausadamente e em boa entonação.

Esse último esforço da bruxa adiantou a sua morte. Para Edgar essa morte era especial. Se ele estivesse certo em seus cálculos, essa deveria ter sido a última, não deixou descendentes, morreu virgem e não foi por falta de pretendentes - ela era um tanto exigente.

Assim que ela parou de se mexer, Edgar teve a certeza que era realmente a última. Sentiu isso. Cumprida sua missão, começava sua paulatina transformação em humano. O uso de seu tempo voltava a seu domínio. Não passaria mais o tempo todo pensando somente em localizar e planejar a execução de bruxas, coisa que até aquele momento era sua natureza. Mais de um milênio e meio para extinguirem-se as bruxas podem parecer muito para quem desconhece a habilidade de uma bruxa em se confundir com os humanos. Para se ter uma idéia dessa habilidade, saiba que nenhum dos maridos das bruxas que casaram desconfiaram que estavam casados com uma bruxa, e suas filhas também viriam a ser bruxas. Ouvia-se um ou outro marido comentar "depois que casei, minha esposa virou uma bruxa", mas isso nada tinha de realidade. Bruxas eram excelentes esposas e mães, mas em relação ao restante da humanidade... Quando Edgar ouvia alguém dizer "estou casado há 10 anos e minha esposa continua um doce", desconfiava que essa mulher poderia ser uma bruxa e investigava-a.

Todas as bruxas eram do sexo feminino assim como os anjos só podiam ser do sexo masculino. Isso causaria revolta em muitas feministas e também em machistas. Essa escolha do estado das coisas relacionava-se ao fato de quem conseguia manipular quem. Imaginar que homens pudessem ser magos ou bruxos, como alguns se anunciavam ou eram perseguidos, era algo divertido para os caçadores como Edgar; seria como imaginar um homem grávido de seu segundo filho e ainda amamentando o primeiro.

Edgar não queria se preocupar, mas a precaução falou-lhe mais alto. A primeira coisa que fez quando chegou em seu lar foi consultar a enciclopédia dos feitiços. Que maldição poderia ter uma só palavra? Procurou o verbete "húmus" e não encontrou. Subiu até o sótão para consultar a enciclopédia completa de feitiços, a qual não precisara consultar nos 637 anos anteriores. Pegou o livro da letra H e desceu para a sala. Folheando, encontrou:

"Húmus: única maldição de uma palavra só; em desuso por requerer muito do poder vital de uma bruxa (cerca de 450 brucses), sem desferir dano considerável ao amaldiçoado; requer raiva extrema da bruxa e contato olho a olho com a vítima; contra-feitiço: desconhecido; duração: até a morte do amaldiçoado; criado em 52 a.C. pela bruxa Jurema de Teso (71 a.C. - 327 d.C., eliminada pelo caçador Calisto) após ter sido beijada à força; efeito: qualquer ser vivo animal que for beijado pelo amaldiçoado ou que o amaldiçoado beijar terá sua boca preenchida com húmus e minhocas vivas; detalhes: húmus composto de resíduos vegetais e animais em decomposição, presença também de silicatos e resíduos basálticos, com minhocas de diversos tamanhos e elevada mobilidade."

Antes na boca dos outros do que na minha e antes terra com minhocas do que outra coisa pior, pensou Edgar, e fechou o livro.

* * *

— Agora já está tarde e você precisa ir para a cama.

— Mas, papai, logo quando vem o mais legal da história...

— Você tem que dormir cedo, senão amanhã ninguém consegue tirar você da cama para ir à escolinha.

— Tá bem, papai. Então eu mesma conto rapidinho o que falta contar. Papai se transformou em humano aos pouquinhos. Nem se preocupou com a maldição da bruxa. Não sentia vontade de beijar ninguém mesmo, nem de ser beijado. Gostava era de caçar. Daí ajudava tribos de caçadores. Isso só para poder caçar. Era o melhor caçador. Mudava sempre de povoado pra não perceberem que papai ainda era imortal. Daí se passaram setenta anos até que começasse a saborear as coisas de comer e as coisas de beber, né, papai? Já tinha esquecido da maldição até que papai beijou uma garota e ela ficou com a boca cheinha de terra e minhoquinhas.

Bianca dá uma breve pausa.

— Daí isso aconteceu outras vezes e papai teve a idéia de ajudar gente que morava onde a terra não era boa pra plantar. Daí papai trazia um monte daqueles bichos de boca enorme e ficava dando beijinhos neles e fazendo montes de terra boa.

Bianca pára de falar para rir. Ela sempre acha engraçado imaginar o pai beijando animais.

— Daí tinha muita terra boa pras plantinhas e tinha depois muita coisa pra comer. Papai pensava que o feitiço podia acabar se usasse bastante. Tinha feitiço que era assim, né, papai? E depois papai...

Bianca percebe que o pai estava ficando com sono e continua a falar:

— Gosto dessa história, papai, mas a mamãe diz que isso é desculpa inventada porque você não gosta de beijar e ser beijado.

De repente Bianca se levanta e dá um rápido beijo na face do pai. Ia pular de alegria e gritar "consegui, consegui", mas, em vez disso, arregala os olhos.

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