Descobrindo-se

Márcio estava, de início, desconfortável nessa sua primeira vez no confessionário, depois de 42 anos de vida. A tranqüilidade e simpatia do padre deixaram-no mais à vontade para contar sua história e para fazer o que precisava fazer.

— Quando garoto, eu andava pelo centro da cidade pedindo esmolas, pedia nas ruas, nos bares, nos restaurantes. Em muitos lugares me expulsavam, aí eu xingava. Também xingava quem, mesmo após eu insistir bastante, não dava nada.

O padre Rodrigo, mesmo com mais de 60 anos, ainda ouvia as confissões com a mesma atenção de quando começara no ofício. Mas naquela época sua coluna não reclamava tanto e nem suas mãos tremiam. Márcio contou algumas peraltices de criança, só as mais graves para não se alongar na confissão, até que fez uma pausa, como se estivesse relembrando, e continuou:

— Minha mãe trabalhava como empregada doméstica, diarista. Não conversava muito, estava mais interessada na televisão, que deixava ligada todo o tempo, no mesmo canal, quando ela estava em casa. Comigo e com meu irmão mais novo ela falava o mínimo necessário. Quando eu tinha sete anos, estava conversando sobre a história de Papai Noel com a molecada da rua. Não acreditava muito, mas resolvi fazer um teste. Uma semana depois, na véspera do Natal, coloquei um par de sapatos perto da janela, do lado de fora. Um dos garotos tinha dito que era só fazer isso para o Papai Noel aparecer e deixar um presente.

O padre mudou-se de posição na cadeira. Sua coluna protestava quando ficava na mesma posição por algum tempo.

— Fiquei do lado de fora, escondido atrás de um tambor que a gente usava para recolher água da chuva. Eu não tinha relógio para saber se já era meia-noite, mas devia faltar pouco. Daí vi alguém chegando perto da janela. Abaixei-me mais ainda. Quando pude ver quem era, levei um susto, o maior susto que já tive. O bicho era enorme e essa impressão não era porque eu era criança. A terra até afundava onde ele pisava. Ficaram as marcas das pegadas, mas minha mãe disse que isso era brincadeira da vizinhança e apagou todas depois.

O padre mantivera-se quieto até aquele momento, mas então perguntou:

— Então era uma pessoa muito alta. Estava vestida de Papai Noel?

— Não, seu padre. Era vermelho, mas era a cor da pele dele. Estava nu. Foi muito rápido, mas tive a impressão de ter visto um par de longos chifres na cabeça. Se tinha rabo, nem tive tempo de perceber. Só podia ser o demônio, pensara comigo, tremendo de medo no meu esconderijo. Demorei um tempão para criar coragem e pegar o que ele deixou no par de sapatos.

O padre ia perguntar o que era, porém Márcio continuou a falar como uma metralhadora:

— Fiquei muito impressionado, mas não contei para ninguém, nem para meu irmão. Para ninguém. Fiquei pensando muito sobre isso. Se para quem era bom vinha o Papai Noel, porque veio o demônio em pessoa para mim? Era o demônio, só podia ser ele. Pensei muito sobre isso até concluir que eu, com meu comportamento, estava era agradando ao demônio, por isso ele me presenteara. Eu tinha que mudar, tinha que melhorar.

O celular de alguém tocou. Era o próximo a se confessar, aguardando na sala vizinha.

— Padre, aí fiquei decidido a ganhar dinheiro de forma honesta e a mudar meu jeito de ser. Ainda bem que só tinha mais um irmão. Se fosse como meus amigos da favela, teria que ganhar muito para ajudar a sustentar uma família de quatro ou cinco filhos.

O padre interrompeu:

— E seu pai?

— Sumiu quando eu tinha três anos, segundo minha mãe. Nunca mais ouvi falar dele, nem minha mãe. Prosseguindo a história, continuei a pedir esmolas por mais algum tempo, mas de forma mais educada. Também consegui algum dinheiro recolhendo produtos recicláveis, engraxando sapatos, lavando carros. Dois anos depois, eu já entrava para a escola decidido a levar os estudos muito a sério.

Márcio contou como conseguiu seu primeiro emprego, intercalando sua história pessoal com os pecados que ele achava mais relevantes. Contou como conseguiu alugar uma casinha, saindo finalmente da favela, junto com sua mãe e seu irmão. Sua ascensão na empresa em que trabalhava. Como convenceu seu irmão a seguir também um caminho similar.

— Acho que minha mãe morreu mais cedo do que devia por causa da melhora na nossa situação. Ela ficava muito tempo na frente da TV, comendo guloseimas. Nunca tinha sido tão gorda.

Assim, Márcio falou de seu casamento, dos filhos, dos sobrinhos. Interrompeu a narrativa quando o padre Rodrigo começou a tossir forte.

— Desculpe-me, meu filho. Minha saúde não anda muito boa.

O padre se recordou, em seus pensamentos, de como seu organismo era frágil desde criança. Parecia-lhe que sempre estava doente, diziam que ele não viveria muito. O padre, finalmente, perguntou:

— E o que o demônio deixou-lhe de presente?

Márcio tirou da bolsa um embrulho. Era um objeto envolto num pano.

— Guardo até hoje, padre.

Colocou na mesa e desdobrou o pano.

— Tive um sono muito estranho na noite passada, não me lembro os detalhes. Mas ficaram claras duas mensagens que se repetiam: “conte seus pecados” e “o sagrado é o lugar do cálice”.

Era um cálice. Simples, de metal. Parecia ser antigo. O padre pegou-o com um desnecessário excessivo cuidado.

— Gostaria que esse cálice ficasse com a igreja. Ou até deve ser necessário que esse cálice fique aqui.

O padre aceitou a doação do objeto. Não acreditava que fosse o demônio que presenteara Márcio. Deve ter sido algum bêbado que, em sua embriaguez, pôs o cálice perto da janela da casa do Márcio criança. O padre já tinha ouvido de tudo nas confissões, e a visão do demônio não era incomum estar presente em algumas confissões.

Márcio ouviu com atenção às penitências impostas pelo padre como forma de purificar-se de seus pecados e foi embora.

No dia seguinte o padre Rodrigo pediu para uma das fiéis que ajudava na igreja se ela poderia lavar o cálice. Havia décadas de sujeira acumulada e não seria fácil para o padre deixar o objeto limpo. No fim da tarde recebera-o de volta. A fiel não só tinha bem lavado o cálice, também o polira. O padre nunca vira um metal refletir tão bem as imagens, como fosse espelho. Uma peça rara, muito mais bela do que o cálice que ele usava nas missas para a consagração do vinho. Teve a idéia de ver como o vinho ficaria nesse cálice. Abriu uma das garrafas e encheu o cálice. O contraste com o metal deixava o vinho mais atraente. E o padre Rodrigo tinha uma queda por vinhos, mas bebia com moderação. Apenas uma taça no jantar.

O vinho ficou diferente no cálice, parecia mais encorpado. Experimentou. Experimentou mais um pouco. O sabor do vinho havia mudado. Experimentou mais um pouco.

— Virou sangue!

Ao redor, ninguém para presenciar o milagre. O cálice só podia ser o Cálice Sagrado, pensou o padre. Mas outro fato espantava-o mais ainda: ele gostou do sabor e, não resistindo, bebeu todo o cálice sem esboçar repulsa. Achou melhor manter segredo, não submetendo o milagre, por enquanto, a seu superior.

Em uma semana percebeu mudanças na sua saúde. Já não mais tossia e fazia anos que não se sentia tão bem com sua coluna. Não andava mais curvado. Depois de um mês, sua saúde estava perfeita; muitos dos fiéis perceberam as mudanças na sua aparência e ânimo, como se tivesse rejuvenescido.

Com o tempo, experimentou outras marcas de vinho com o cálice. O sangue ficava com sabor ligeiramente diferente, e o padre achou todos os sabores agradáveis.

Depois de seis meses, era ritual diário a dose generosa no cálice. Mas aquele dia era especial, tanto que o padre Rodrigo separou parte de suas poucas economias para comprar uma garrafa de um dos mais saborosos vinhos. Pegou o táxi até a região central da cidade e voltou com a garrafa dentro de uma sacola simples, mas que era carregada com carinho.

Não teve paciência para esperar o jantar. Pôs no aparelho de som da igreja um CD de Haydn e, dançando ao som da música, ato que lhe era impossível fisicamente há poucos meses, foi buscar o cálice. Entrou em seu escritório e encontrou tudo revirado, armários abertos e, aquele que era trancado com cadeado, arrombado. As doações e dízimos recebidos na semana foram levados. O cálice também. A polícia não encontraria os culpados. Nunca mais o padre Rodrigo voltaria a ter aquele cálice.

Em uma semana, ele já sentia a falta das doses do vinho convertido em sangue. Somente o vinho não mais o satisfazia. Até o mais fino vinho tinha para ele, agora, um sabor insosso. Sentia também que estava aos poucos perdendo o vigor físico obtido.

Celebrava a missa com um certo desânimo. Mas enquanto o coral de crianças cantava o hino religioso, o padre começou a flagrar-se com os olhos fixos nos pescoços das jovens nas primeiras fileiras. Não sabendo como, podia até ouvir o sangue sendo bombeado pelas veias delas.

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