Corpos

Quebrou. Em muitos pedaços. Papai ouviu o barulho e grita lá do quintal: “Carla, o que você aprontou dessa vez?” Pego as flores, coloco-as numa panela e ponho água. Estava tão divertido brincar de bola na sala...

Papai sempre me repreendia por minhas travessuras. Ele era rigoroso e queria pôr fim às minhas atitudes, embora eu não fizesse nada de tão grave que outras crianças também não o fizessem. “Um dia te tranco no necrotério” - era sua maior ameaça para dissuadir-me de minhas estripulias. Era lá onde papai trabalhava, como vigia noturno. Eu achava estranho o fato de até os mortos precisarem de proteção.

Tem-se que perdoar os pais por essas ameaças, pois se sabe que a intenção deles geralmente é boa, embora o conhecimento que eles detêm de como educar bem aos filhos nem sempre está dentro de padrões aceitáveis. Afinal, não existem escolas para o ensino da paternidade e praticamente todos aprendem somente com a prática, através do tradicional método de erros e acertos – muitos mais erros do que acertos.

Não me lembro da traquinagem, mas foi dito e feito. Ser filha única traz a desvantagem de não ter a quem atribuir ou com quem repartir a responsabilidade por algum ato descoberto. “Promessa é dívida” - repete papai. Ele me leva ao entardecer para sair. “Vamos passear, filhinha...” Em verdade, seu objetivo é dar o castigo merecido, cumprindo a sua mais famosa ameaça. Chegamos no local de trabalho de papai: o prédio onde está instalado o necrotério. “Filha, isso é o melhor para você, pois os filhos devem se comportar. Veja os filhos de nossos vizinhos, como são bem comportados. É de pequeno que se torce o pepino.”

Entramos no enorme prédio. Na entrada, havia percebido um jardim muito florido. Esse jardim deve ficar muito bonito durante o dia, mas à noite, como já ouvi papai dizer, todos os gatos são pardos. Depois de caminharmos por uma confusão de corredores e portas, papai pára diante de uma delas, a maior, retira do bolso um punhado de chaves e destranca a porta. Sinto um cheiro desconhecido, forte, que depois venho a saber que é de formol, utilizado para conservar os corpos. O ar está muito frio. Papai retira de uma bolsa alguns agasalhos, que reconheço como sendo os que uso nos dias de inverno, e veste-me com eles – vê-se que papai sempre se preocupa com a minha saúde... “Zarolho!”, exclamo quando papai me entrega meu ursinho de pelúcia.

Há várias mesas com cadáveres sobre elas. A maioria deles estão cobertos por lençóis brancos; alguns dos lençóis têm pequenas manchas de sangue. “Carla, daqui a algumas horas venho te buscar... Isso é para seu bem... E repetirá se você continuar com essas suas peraltices...”

Papai fecha a porta, escuto os ferrolhos. Há pouca luz. Se o ambiente estivesse mais bem iluminado daria menos alimento à imaginação. Cadáveres à meia luz enganam os olhos: tem-se a impressão que se viu um movimento aqui ou uma sombra se deslocando rapidamente por um canto. Se é possível que mortos voltem à vida, torço para que não seja durante o castigo dessa pequena ré, que já está a cumprir a pena imposta, sem direito à apelação e a todos os recursos legais da qual a sapiência humana dotou nossa justiça legal. Imagine a surpresa se um desses corpos se espreguiçasse como despertando de longo e reparador sono, se levantasse e perguntasse em tom de premência: “Por gentileza, pequena menina, onde se localiza o banheiro?” Daí eu responderia: “Estamos presos aqui. O senhor poderia aguardar por mais algumas horas, até o momento em que papai decidir que a nossa pena já foi o suficiente? Digo nossa pena, embora a pena seja só minha, porque estamos em iguais condições de aprisionados.” Talvez eu mantivesse uma conversa com o ex-morto, visando distrai-lo de suas vontades, indagando sobre como é a morte, se encontrou a Deus ou ao Diabo ou a algum intermediário de menor escalão, se a morte é como se estivesse dormindo, quanto tempo ficara morto, como conseguira sobreviver à autópsia, se voltou porque quis ou se foi obrigado. Tantas perguntas que até nosso outrora-cadáver se questionaria se não teria sido melhor fingir-se de morto a ter que saciar a sede e a fome da curiosa mente de uma garotinha. Ou talvez nosso vindo-dos-mortos pense consigo se não seria o caso de um outro cadáver piedoso se levantar e dividir o encargo de apaziguar a mente inquisitória dessa pequena questionadora.

Nada disso acontece, pelo menos até agora. Não sei se a lógica se aplica a todos os lugares, quanto mais a um necrotério. Seria uma violação das sagradas leis do homem e de Deus se um desses corpos se erguesse, embora existam relatos de transgressões a esse estado de falecido.

Alguém pode se perguntar o que faria se, com nove anos de idade, seu pai lhe trancasse num necrotério para fazer companhia àqueles que nem sequer demonstram sentimentos de solidão. Não sei qual seria o comportamento adequado, o que as regras de etiqueta determinam nessa situação, mas eu tenho minha decisão: enfio a mão no bolso e saco... uma pequena lanterna. Ora, isso faz parte do meu plano: há meses sonho em entrar num necrotério, e não podia imaginar que ficaria, ainda por cima, sozinha: ter um necrotério só para mim! Quando com sete anos de vida já tinha na cabeça e no coração o desejo de ser médica. Tínhamos uma enciclopédia médica na estante de casa, encontrada por papai após ter sido descartada por algum médico. Assim que aprendi precocemente a ler, li essa enciclopédia por três vezes. Mesmo antes de adquirir a habilidade da leitura, já a havia folheado dezenas de vezes, deslumbrando-me com as gravuras. Mais tarde, comecei a freqüentar as bibliotecas da cidade e lia tudo o que encontrava nas áreas de Medicina e Biologia. E papai, sabendo que eu me interessava pelo assunto, começara a trazer revistas e livros da área médica que fossem descartados pelo pessoal do necrotério. Aprendia também quando achava animais mortos pela rua ou no meio do mato: ficava analisando em minúcias o interior desses animais. Primeiro certificava-me que o animal estava realmente morto e depois lhe cortava o corpo com uma pequena e afiada navalha, imaginando que estava numa cirurgia. Sentia pena por não poder dar a vida de volta a esses pequenos animais.

Quais desejos viram realidade? Talvez aqueles desejos cujos passos para concretização são planejados sejam os que mais têm a probabilidade de se tornarem reais: e foi o que fiz quando papai ameaçou-me trancar no necrotério. Como uma pequena estrategista, planejei os passos que levaram papai a essa atitude, o que não foi difícil, considerando-se que papai é o tipo de pessoa muito nervosa e, em termos de costumes, conservador além do que seria razoável.

Acendo minha lanterna. Tenho no bolso um suprimento de pilhas suficiente para passar um dia inteiro no necrotério, sou uma menina prevenida. Prendo meus longos cabelos lisos como aprendi com a mamãe – pareço-me muito a ela: morena e com olhinhos e cabelos muito pretos.

Por onde começar? Uma pergunta cuja resposta nem sempre é óbvia se a ansiedade é de porte considerável. Pela disposição das mesas, penso em começar pela fileira da direita, ir avançando até o final dela e continuar com a fileira ao seu lado esquerdo. Não sei se terei tempo de ver todos os cadáveres: dependerá de quando papai achar que o castigo já foi o suficiente. Espero que ele demore...

Em cada corpo está atado, no dedão do pé direito, um cordão. Preso a esse cordão, uma ficha. Em cada ficha há uma breve descrição da pessoa e a causa da morte. Leio a ficha e fico imaginando um diálogo. “Olá, meu primeiro paciente da espécie humana! O senhor tem, vejamos, 38 anos. O que ocorreu com o senhor?” “Eu estava assistindo ao noticiário matutino e, de repente, senti uma dor horrível no peito. Cai do sofá, estava sozinho em casa, morri...” “O senhor deveria fazer como eu: assistir desenhos animados pela manhã. Noticiários fazem mal ao coração.” “Numa próxima vida, se houver, seguirei seu conselho, doutora.” “Trouxe comigo minha afiada navalha. Farei uma incisão no seu peito e...” “Espere aí, Dra. Carla, como você quebrará o esterno e afastará os pulmões para expor o coração? Pelo seu tamanhinho, creio que não tem ainda força suficiente para isso e nem sabe operar os equipamentos adequados, que devem estar em algum desses armários que circundam o ambiente. Ademais, a senhora só fez operações em cães, gatos e pássaros até agora...” “Tem razão, senhor... Descanse em paz...” Um pouco entristecida, vou para a mesa seguinte. Uma senhora, vítima de acidente de carro – está irreconhecível pois a face foi esmagada: não há como conversar com ela. Acho que não estava usando o cinto de segurança e bateu com o rosto no pára-brisa. Posso observar alguns pedaços do cérebro – uma massa cinzenta como dizem e como vi nos livros. O corpo seguinte é de um suicida morto por enforcamento. “Doeu muito, senhor?” “Putz, nem se fala. Veja como ficou meu pescoço.” “Ficaram com umas marcas fundas deixadas pela corda.” Vou à outra fileira – uma mocinha morreu também num acidente, um senhor nos seus cinqüenta e três anos morreu de câncer do pulmão. “O senhor fumava muito?” “Desde adolescente. Sabe, mocinha, que meu último desejo foi fumar um cigarro...” “Percebe-se, ainda se sente o cheiro da fumaça em seu corpo...” “Sabe, mocinha, morri com o cigarro aceso na boca... Primeiro morri eu, depois morreu o cigarro.”

Já estou na terceira fileira. Ao erguer o lençol na próxima mesa, fico exultante. Um corpo desmembrado devido a um acidente! Um leigo não reconheceria as partes do corpo humano nessa massa que se encontra dentro de algumas bacias, mas eu, que já analisei minuciosamente fotos e mais fotos do interior do corpo humano e de seus órgãos, reconheço cada parte. Trouxe no bolso também um par de luvas de borracha – embora sejam grandes demais para minhas mãos, não me tiram em excesso a maneabilidade. Vou retirando um a um os órgãos de dentro das bacias e analiso-os com cuidado. Depois de meia hora dessa análise, tenho que jogar as luvas no cesto de descarte, pois ficaram ensangüentadas. Não quero deixar um rastro de pingos de sangue pelo piso do necrotério a denunciar minhas investigações científicas.

Passo rapidamente por cada corpo na próxima fileira, pois o tempo já parece estar escasso, e acabo encontrando um corpo aberto! Provavelmente quem estava fazendo a autópsia desse corpo percebeu que chegara seu horário de saída e deixou o corpo a espera do próximo turno de trabalho. Pena que não tenho mais minhas luvas para poder vasculhar o interior desse corpo. Satisfaço-me com uma análise superficial.

Na quarta fileira fico chocada por encontrar uma menina com a minha idade: morreu de meningite. O penúltimo corpo da fileira é de um bebê. O corpo está acinzentado e seus olhos estão abertos. Tento fechar-lhe as pálpebras, mas voltam a se abrir, como se estivesse espantado como quão breve foi-lhe a vida: “Já acabou?!”, seria seu último pensamento. Imagino que esse último olhar foi dirigido à desastrada mãe, que, por descuido, derrubou o bebê. Com a queda, fraturou-se o pescoço, de acordo com o que está escrito na ficha amarrada no pezinho. Vamos ao próximo e último.

“Hummm, que gato! Musculoso e lindo! O que aconteceu com você?” “Nem eu sei, menina. Estava vivo numa hora e morto em outra...” Uma bala perdida? Uma briga no trânsito? Um marido ciumento? Mesmo a morte leva alguns dias para tomar a beleza de um formoso jovem e a lhe tirar a voluptuosidade do corpo. Ajeito-lhe os cabelos para que uma mecha esconda o pequeno orifício deixado pela entrada do projétil que lhe levou a vida. “Isso, garota, penteio o cabelo desse lado mesmo... Poderia me fazer uma massagem?” Cubro-lhe o corpo com um lençol.

Acabaram-se os corpos. Lembro-me das bacias com órgãos humanos e penso: “Por que não levar algum para poder analisar com mais cuidado, em algum lugar oculto dos olhares adultos?” Ótima idéia! Vou abrindo os armários e encontro um recipiente com tampa hermética – excelente para transportar material orgânico. Pego o recipiente e dirijo-me à mesa com as bacias. Qual órgão levar? Queria levar o coração... Oh! Os ferrolhos da porta... Acabou a brincadeira...

Ponho apressadamente o recipiente de volta no armário. Desligo a lanterna e coloco-a no bolso. Pego o Zarolho, meu ursinho de pelúcia que jazia esquecido no chão. “Desculpe, Zarolho...”, sussurro. Vou para um canto próximo à porta. Agacho-me e fico quietinha, com a cabeça entre os joelhos. Tento forçar algumas lágrimas, mas não há mais tempo... O máximo que posso é forjar soluços. Papai entra. “Carla, seu castigo acabou. Aprenda a lição. Vamos para casa...”

Procurei ter esse castigo outra vez, aprontando algumas artes para que papai se zangasse. Mas esse castigo nunca mais se repetiu. Nunca mais. Talvez papai tivesse ficado com remorsos. Ou talvez um médico tenha comentado que alguém havia mexido nos cadáveres e perguntara a papai se percebera algo de anormal durante a vigilância.

* * *

Boas recordações... Quanto tempo faz? Como o tempo voa! Minha atenção volta-se, agora integralmente, ao tempo presente. O transplante do coração que realizei neste paciente está concluído e, tudo indica, com o sucesso esperado. Novamente tive que conter a vontade que sempre sinto de colecionar órgãos humanos: esse coração ficaria muito bonito num frasco na minha estante. Enquanto suturava cuidadosamente, embora de forma mecânica, automática, o peito que guarda um novo coração, tive essas lembranças. Hoje, com 42 anos, já sou uma médica-cirurgiã muito requisitada. Mal tenho tempo para outras atividades fora consultas e cirurgias. Limpo o peito do paciente com gazes estéreis e dou por concluída a cirurgia, elogiando a equipe. Estamos muito cansados. Depois de lavar-me e trocar de roupa, volto ao meu consultório e acabo adormecendo no sofá.

Desperto em pouco tempo. Vou visitar meu paciente de coração recém-transplantado. Entro na sala de recuperação. Ele está acordado. Pergunto-lhe: “Papai, como está se sentindo?” Papai responde: “Algumas poucas dores, mas pensava que seria pior...”

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